Quinta-feira, 31 de Maio de 2012

No grupo do facebook do Tramagal foi colocado pelo jornalista Mário Rui Fonseca este documento da autoria do Sr. Dr. Octávio Oliveira que pela sua importância merece ser divulgado.

 

Um alerta para o caso da partidarização das associações locais

 

Podem seguir a discussão aqui  

 

 

Associação de Melhoramentos da Freguesia de Tramagal
25 anos
25 de Maio de 2012

“Dos propósitos iniciais aos desenvolvimentos posteriores”

Cumprimento e saúdo todos os presentes e de uma forma especial os presentes que ao longo destes 25 anos integraram os Órgãos Sociais da Associação.
Saúdo a actual Direção por esta iniciativa e pelas comemorações.
Nesta ocasião quero não só lembrar e saudar os membros dos Órgãos Sociais ao longo dos 25 anos, mas também todos os que de alguma forma contribuíram para este percurso, designadamente os prestadores de trabalho voluntário, os contribuintes nos peditórios realizados e todas as cooperações individuais e colectivas.
Agradeço o convite que a actual Direção me endereçou para dirigir umas palavras nesta ocasião.
Pensei no que deveria dizer. Concluí que só poderia dizer o que penso.
Tenho para mim que tem havido na sociedade portuguesa demasiada hipocrisia, demasiado cinismo, demasiada falsidade, o que tem dificultado a afirmação da verdade e das realidades.
Aos meus filhos costumo aconselhar que prefiram um inimigo velhaco a um falso amigo.
O seculo XX do Tramagal foi marcado pela grande empresa e empreendimento que foi a Metalúrgica Duarte Ferreira.
Em 74 a empresa já estava bastante doente e com o destino traçado.
Em 74 e anos seguintes o Tramagal era uma sociedade dividida e fracturada pelas querelas políticas e partidárias, mais visíveis no ambiente laboral, distraída e ocupada com estas questões. Outras terras tratavam da vidinha.
Em 1980 celebrava-se 100 anos da MDF e proclamava-se o Futuro.
Em 1984 a empresa agonizava, as sucessivas dispensas de trabalhadores sucediam-se e o clima entre as pessoas era de desconfiança e de acirrada competição.
Continuávamos divididos e distraídos, enquanto outros tratavam da vidinha.
Chegava ao fim uma era !
Em 1985, tinha 25 anos, foi-me dada carta branca para preparar a candidatura do PSD no Tramagal às eleições autárquicas de 1985.
Entendi que mais importante que o PSD era o Tramagal.
Entendi-me com alguém, que representaria o PS, para que ambos os partidos não concorressem e houvesse uma candidatura independente. Concordámos na pessoa que deveria ser candidata a Presidente da Junta. O propósito era que as questões menores dos partidos não nos dividissem. 
A democracia é um regime de partidos, mas o poder local democrático não deve limitar-se aos partidos. 
Aquele, deveria ser o momento da união, de enterrar coisas pequeninas e das grandes questões do futuro. 
O Tramagal exigia uma resposta à altura da crise e do momento.
As décadas de prosperidade à sombra da MDF e a década de distracção política deveriam e poderiam dar lugar a uma outra realidade social, de convergência de vontades, de mobilização colectiva e de reivindicação no contexto do concelho.
O acordo não foi concretizado. O candidato sobre o qual havíamos estabelecido um acordo foi o candidato do PS nas eleições autárquicas.
O PSD à pressa foi fazer uma lista que ganhou as eleições autárquicas de 1985, com o Sr, Francisco Estudante como Presidente de Junta.
Paradoxalmente, aquela que havia sido uma aldeia rica e que tinha durante décadas gerado postos do trabalho, valor e riqueza, com enorme impacto no desenvolvimento do concelho de Abrantes e em concelhos limítrofes, era promovida à categoria de Vila em 1986.
Uma referência breve para afirmar que esta elevação teve dois grandes propósitos: procurar elevar a auto-estima da sociedade tramagalense, um conforto social, do género ajudar a fazer o luto e um outro, afirmar o Tramagal no concelho de Abrantes, com a Vila a seguir à cidade, procurando elevar o capital de reivindicação na nova realidade, em que já não havia MDF. 
Foi proposto instalar um Banco em Tramagal. Os tempos eram outros. Não havia balcões de bancos ao virar da esquina. Ainda não havia fax nem internet. A Caixa Geral de Depósitos e o Banco Pinto & Sotto Maior disseram não após muitas insistências. Mas o Tramagal veio a ter um Banco, a Caixa de Crédito Agrícola, da vontade e feito pelos próprios, que hoje semeia balcões pela cidade e freguesias de Abrantes e concelhos limítrofes. Não é o momento para fazer a avaliação deste processo, mas direi que está aquém do impacto que julgo poderia e deveria ter tido com o Tramagal, que a fez nascer.
Foi proposta a existência de um Pavilhão Gimno-Desportivo. Para concretizar este projecto havia necessidade de fazer candidaturas e obter financiamentos que uma Junta de Freguesia não poderia concretizar.
Noutras terras tinham sido constituídas Comissões de Melhoramentos, à sombra das Juntas de Freguesia para tornear a lei.
Entendi, o que propus, que não fosse esse o caminho. Que criássemos uma coisa séria, congregando todas as vontades sociais, canalizássemos todas as energias, acima das querelas partidárias fosse possível encontrar algo - a freguesia, não só o Tramagal mas também o Crucifixo – que pensássemos alto e não fossemos pequeninos. Que o Pavilhão sendo o objetivo imediato não limitasse a nova Associação.
Em parte, concretizando, por outra via, o que havia estado acordado e que poderia ter sido a solução independente para as Eleições Autárquicas de 1985.
Tive resistências e muitas desconfianças. Afinal, o PSD havia ganho e agora estava disponível para cooperar com os derrotados.
Tinha a convicção que se não fosse esse o caminho sairíamos todos derrotados.
Houve outras desconfianças. Do mesmo género, do mesmo tipo de pessoas. Embarcar neste projecto era ajudar o PSD a concretizar a promessa eleitoral. É da espécie humana.
A Associação nasceu por escritura pública celebrada em 29 de Maio de 1987, tendo a tomada de posse dos primeiros Órgãos Sociais acontecido a 21 de Novembro do mesmo ano.
A Comissão Instaladora e os primeiros Órgãos Socais evidenciam a abrangência social, a pluralidade, a diversificação, a vontade de congregar vontades e a capacidade de ultrapassar divergências menores perante importantes objectivos.
O caminho inicial não foi fácil. Admito que as desconfianças fossem algumas.
O caminho da união na diversidade não é fácil. A mentalidade individual e as lógicas do umbigo e da quintinha tinham e continuam a ter uma grande prevalência na sociedade portuguesa. 
Relembro a dificuldade na primeira direcção em aprovar que a Associação se candidatasse a programas do Centro de Emprego, por beneficiar de melhores condições, para que depois as pessoas desempregadas fossem enquadradas na Junta de Freguesia e na Escola Secundária. O importante não eram as pessoas, mas o medo, o fantasma que do processo resultasse uma vantagem eleitoral para o PSD. 
Quanto à primeira iniciativa e obra – a Casa Mortuária de Tramagal – lembro as dificuldades iniciais. Convencer o Sr. Padre Carvalho a abdicar de um terreno que lhe estava prometido e de um pré projecto que já tinha, para uma solução em que alfaias religiosas fossem amovíveis para permitir uma utilização por todos os credos religiosos e ideologias. Convencer a família Torres Pereira a transferir a intenção de doação sem ser para a Igreja, no contexto doloroso em que havia tomado a decisão. Pela primeira vez promover reuniões com as Testemunhas de Jeová para apresentar o projeto e obter uma adesão com base na plena utilização. 
A Casa Mortuária de Tramagal concretizou-se, foi concluída em 1991, por uma Direção presidida pelo Engº Fernando Bexiga.
Este empreendimento evidenciou que era possível concretizar objectivos sem o apoio da MDF, com base no querer colectivo e na capacidade de acreditar na Terra e nas suas Gentes.
Relembro a grande mobilização para este empreendimento, de cidadãos da freguesia, associados ou não, que generosamente contribuíram com a força e entusiasmo do trabalho; o contributo monetário da população; as Empresas e Empresários locais e a Comissão Unitária de Mulheres. 
Relembro que a propriedade da Casa Mortuária foi estabelecida por protocolo para a Junta de Freguesia. Os propósitos da Associação de Melhoramentos não eram, na altura, uma dimensão materialista relacionada com o seu ativo e património, mas uma dimensão social, de utilização pela comunidade. 
A concretização do Pavilhão Desportivo de Tramagal acabou por ser uma estrutura municipal. Mas a intervenção da Associação de Melhoramentos foi decisiva no comprometimento da Câmara de Abrantes no projecto, ainda no tempo do Sr. Engº José Bioucas; na antecipação da construção; na qualidade e funcionalidades do projecto e na dimensão social da iniciativa. A Associação de Melhoramentos contribuiu com um significativo valor e assegurou um painel de azulejos, a que atribuo grande valor simbólico e patrimonial.
Claro, esta iniciativa acabou por não ter, em função da natureza, um grande envolvimento e participação colectiva. 
É por esta altura, um pouco antes, que em minha opinião a Associação de Melhoramentos inicia um processo de alteração de trajectória em valores e princípios. Aos quais me opus, em Assembleia Geral. Respeitei, como continuo a respeitar as decisões tomadas.
Passados vinte anos também tenho o direito de avaliar as consequências.
Ainda no rescaldo da Casa Mortuária de Tramagal é estabelecido um desconto no velório para os associados, com a intenção de estimular a angariação de novos associados e de encontrar argumentos para se ser associado. Votei contra e em carta registada com aviso de recepção renunciei ao direito. A minha família, assim o desejo, pagará a permanência do meu cadáver na Casa Mortuária de Tramagal. Nunca pensei em beneficiar da isenção. Sempre pensei que a Associação de Melhoramentos não tivesse um lado material, próprio dos tais umbigos e quintinhas, e fizesse o bem sem olhar a quem.
Outra decisão, legítima da Assembleia Geral, foi a de alterar o carácter obrigatório de todos os associados receberem o aviso convocatório das Assembleias Gerais. Opus-me. Sempre pensei que a Associação de Melhoramentos não era uma associação para ter associados em massa, mas associados de qualidade, participativos e interessados, e que a Assembleia Geral era o local ideal para que a instituição tivesse uma estratégia e um rumo. Consegui que os associados não residentes no Tramagal continuassem a ser obrigatoriamente convocados. Alterei a minha residência para Torres Novas, em carta registada com aviso de recepção, para que obrigatoriamente fosse convocado. Nos primeiros tempos fui telefonicamente convocado, o que reconheço e agradeço, por uma Senhora que integrava a direcção. Não recebo convocatória há pelo menos 15 anos. Nem tão pouco sei se ainda se mantém a obrigatoriedade. Há cerca de 2 anos, com os recursos às redes sociais, vi uma convocatória, achei interessante a iniciativa, desloquei-me propositadamente a Tramagal, mas tinha sido adiada.
Entretanto, outras importantes conquistas foram realizadas como a Casa Mortuária do Crucifixo e os Campos de Ténis.
Ao nível dos contributos para as estruturas de condições de vida a avaliação que faço da actividade da Associação de Melhoramentos é muito positivo.
No entanto é bom termos presente que a inauguração da última estrutura, os Campos de Ténis, já aconteceu há muitos anos, o que quer dizer que no balanço positivo dos 25 anos, deve estar presente um significativo esvaziamento pelo menos na última década.
Tenho para mim, o que sei partilhado por muitos, que pelo menos na última década a Associação de Melhoramentos não foi uma Associação propriamente dita, mas um grupo de amigos bem intencionados.
Tenho para mim que o que faz as organizações fortes são os valores, os princípios, os objectivos comuns e a envolvência colectiva. Mais que o lado material o que importa e faz a diferença é a cultura e o lado imaterial. 
Tenho para mim, o que sei partilhado por muitos, que pelo menos na última década a Associação de Melhoramentos foi uma plataforma de candidaturas políticas de um determinado partido político.
O caminho pode ser prosseguido nos mesmos moldes. Alegres, satisfeito e assobiando. Eu, vou pagando as minhas quotas.
Mas é importante que tenhamos consciência que o Tramagal está a agonizar. A vida é cada vez menor. Os jovens escasseiam. O ambiente social é complicado. As ruas são feitas de casas fechadas. 
Reconheço que a Câmara Municipal de Abrantes tem concretizado investimentos adequados em infraestruturas. Mas o problema não é esse. Até as infraestruturas começam por deixar de ter viabilidade ou sustentabilidade.
Não será o eventual crescimento da Mitsubishi que resolve o problema, atenua-o. Não são os prémio dos vinhos do Casal da Coelheira que resolvem o problema, quanto muito dão-nos orgulho.
É necessário um Plano de Desenvolvimento para o Tramagal, com duas vertentes: criação de empregos e mais residentes.
Alterar o futuro e que este não seja o prolongamento do presente só é possível, em minha opinião, com um Tramagal forte politicamente, capaz de dialogar com o poder municipal e criar uma dinâmica própria. O Tramagal não pode ser subserviente.
A Associação de Melhoramentos pode ajudar se concretizar iniciativas que promovam a mística de Tramagal, os nossos valores, os símbolos, a envolvência colectiva e a reduzir os interesses partidários à insignificância que devem ter neste domínio.
Estes 25 anos, para o bem e para o mal, foram feitos por nós.
Os próximos também. 

Octávio Oliveira

 

 

com a devida vénia MA

 

 

 


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