Quinta-feira, 17 de Janeiro de 2013

 

O Snr. Duarte Monteiro  disse sobre Correio atrasado (1): O velho PREC abrantino na Quarta-feira, 16 de Janeiro de 2013 às 20:16:

 

     

No seguimento da referência ao meu pai, permita-me só mais alguns apontamentos e esclarecimentos.
Não sei se o nome do meu pai foi vetado para integrar a comissão administrativa da CMA ou se foi ele que não lhe agradou algumas das companhias e o rumo que as coisas estavam a tomar...passo a explicar.
Abrantes era naquela altura uma cidade pequena em que toda a gente se conhecia e todos sabiam que era do regime, quem era da oposição e quem era indiferente à politica. O Café Primor e a Antiga Casa Vigia

 

 

 

 

 

 

eram locais de reunião dos oposicionistas, ao passo que o Pelicano era o centro dos apoiantes do Governo. Ainda havia o bar do Hotel Turismo, mas isso era só para alguns dos "ricaços" locais. Ainda assim, todos se davam com todos e tanto assim é que foram raros os importunados pela PIDE. Naturalmente que havia alguns mais extremistas ( especialmente gente nova à beira de ir para a tropa ou já nas faculdades) mas era levando a título de fulgores da juventude. Abrantes tinha ainda um aspecto curioso: a existência do Orfeão Abrantino e dos Amadores de Pesca de Abrantes (importantes na vida social e recreativa da cidade) e a Liga dos Amigos de Abrantes ( em menor escala) favorecia a convivência entre os contra e os a favor do Estado e do estado das coisas. Eram instituições importantes na convivência e no viver em sociedade. Sendo manifesta e publicamente do contra, o meu pai sempre respeitou e sempre foi respeitado pelos apoiantes do Estado e até por alguns informadores/agentes da PIDE (que os havia também na cidade). Nos dias imediatos ao 25A, há todas aquelas manifestações pró-de democracia, umas mais genuínas, outras mais recentes, mas começa também a haver algumas conversas sobre "acertos de contas." Na altura, o já falecido Dr. Estrela (sogro do Maggiolli Gouveia) que sempre fora um homem do antigamente, antigo professor do Liceu e que era administrador do hospital da Misericórdia ( julgo que foi saneado pouco depois...), e que sempre mantivera relações cordiais com o meu pai, num dos dias imediatos ao 25a é alvo de perseguição nas ruas e tentativa de linchamento popular por parte de alguns revolucionários e alguns funcionários do hospital. E não era a brincar! Tanto que foi o meu pai que recolheu e abrigou o Dr. Estrela em casa durante algumas horas até que as coisas acalmassem. Um segundo episodio tem a ver com uma exposição de fotografias, organizada por revolucionários, no que era, julgo, a sede (ocupada) da União Nacional, frente ao café Pelicano. A exposição retrata as "barbaridades" das tropas portuguesas colonialistas na guerra de Africa e onde surgem alguns militares naturais ou residentes em Abrantes. Tudo com o claro intuito de acicatar a população contra aqueles. Um dos visados seria - tanto quanto julgo saber- o então capitão Terras Marques, pessoa que o meu pai conhecia, bem como a esposa deste. Foram episodios desta natureza que poderão ter levado o meu pai a repensar uma actividade politica mais participativa, uma vez que não queria estar associado aos extremismos que se adivinhavam. O ser um homem moderado e sensato permitiu-lhe, por exemplo, manter relações sociais e de boa vizinhança mesmo com quem tinha ideologias e pensamentos opostos aos dele. Talvez por ter vendido a República noutros tempos, sempre foi cliente da gelataria Flor de Liz e sempre se deu com o Sr. Paulo Dias, apesar deste ser um apoiante do antigamente e facultar aos clientes o Diabo da Vera Lagoa, quando este era um jornal reaccionário.

 

 

Caro Duarte,

 

Obrigado pelo seu testemunho precioso. 

 

 

 Aqui temos o dr. Estrela rodeado por alguns vultos do regime e não só. A foto foi divulgada pelo jovem Eduardo Castro que é um dos rapazes com o uniforme da MP. Também há pessoas ligadas à educação na foto porque o terceiro à esquerda na última fila é o Irmão Luciano Paciente, 1º Director do La Salle, excelente pessoa, espanhol, como a maioria dos ''frades'' e confesso admirador do Generalíssimo Franco....

 

 

Para mim é uma novidade a história da tentativa de linchamento do dr. Estrela, que conheci bem e que foi depois do 25A um dos que montaram o CDS em Abrantes.

 

Há algum pormenor que me deixa confuso quando fala do edifício ocupado face ao Pelicano, penso que se está à referir à Assembleia de Abrantes, ocupada em meados de 1975, por um conjunto de personalidades locais, entre elas um deputado dado à agulha e ao dedal (conta o Miguel Serras Pereira na Vida Mundial) e alguns jovens. A Assembleia nunca foi sede da UN e eu desconheço onde era a sede da União Nacional, tenho de perguntar ao Vice-Presidente da ANP da época, o snr. eng. Ruivo da Silva, genro do construtor civil Apolinário Marçal.

 

 

 

Nesta foto da Época (órgão oficioso da ANP) a reunião abrantina parece ser no edifício velho da CMA, na Raimundo Soares.... 

 

 

 

A minha ignorância nesse campo (sede da ANP) é parecida com a do último Presidente da Ditadura, o dr. Esteves Pereira, depois colega nas mesmas listas na Assembleia Municipal que o dr.Armando Fernandes. Dizia o dr. Esteves Pereira pouco depois do ''golpe'' que não sabia onde era a sede da Legião....

 

Também não sei, mas a sede da MP, a popular ''Bufa'' era numa ruazinha que vai para o Castelo, perto da casa do António Castel-Branco e da tipografia Águia de Ouro.

 

Outro dia estive a beber um copo com um velho amigo militar que me contou que no início dos anos 60 era instrutor da Legião abrantina....com o Maggiolo Gouveia...

 

A  sua explicação acerca da hipotética recusa do seu Pai em fazer parte da Comissão Administrativa pode ser certa, mas posso adiantar que os 2 Vereadores que não foram ''eleitos'' pela reunião no Convento de São Domingos, foram impostos ao MDP/CDE (que na prática estava morto em Abrantes e só ressuscitou no dia 26 de Abril de 1974) pela autoridade militar spinolista. Foram eles o eng.Bioucas e o sr.Graça Vieira.

 

A outra hipótese, aventada por militares dessa época, é que houve um veto spinolista ao seu Pai e ao dr. Pissarra. Alguns protagonistas estão vivos. E se contassem a história?

 

Resta referir que a democracia se constrói com homens dialogantes, como o senhor Seu Pai. Os fanáticos e os vira-casacas são dispensáveis. Lembro-me dum informador da Pide, que no dia 26 de Abril já andava de emblema do MDP-CDE....

 

A democracia faz milagres....

 

 

Muitos cumprimentos

 

M. Abrantes

 

Se bem me lembro uns anos antes do 25 de Abril foram presos pela DGS em Abrantes o Gustavo de Moura e o Zé Alberto Marques. Prisão breve, mas que ainda durou uns dias.....

 

 

 

 



publicado por porabrantes às 23:05 | link do post | comentar

2 comentários:
De pelicano a 18 de Janeiro de 2013 às 22:51
Fico de algum modo estupefacto por não se saber quem era e quem foi o Sr Abilio Monteiro.Subscrevo tudo e muito mais que o seu filho relata. Eu fui para Abrantes em 1953 não para passear , mas para trabalhar. Era miudo e com outros miudos tinhamos no Sr A.Monteiro na ourevesaria Palma um amigo. Era da oposição. Não era fanático. Tinha ideias muito claras sobre o regime e sobre o que queria. Foi sempre respeitado por toda a gente. Seria bom que os "historiadores de Abrantes " fizessem as pesquisas adequadas e as publicassem nas suas revistas.


De porabrantes a 19 de Janeiro de 2013 às 20:36
Caro leitor: Agradeço o seu comentário. De facto não sabia quem era o Sr.Abílio Monteiro. Por isso disse que desconhecia quem era e estou grato ao Sr.Duarte por nos ter esclarecido.
O que não se deve fazer é o praticado pelos ''hhistoriadores'' da revista, como o Martinho Gaspar que fala do que não sabe. E por exemplo ligou Duarte Castel-Branco à ditadura. Coisa falsa.
Perguntar o que não se sabe é o dever duma pessoa honesta.
Agora os nossos leitores já sabem quem foi Abílio Monteiro.
Somos contra a ''história'' oficiosa da dita revista.Porque nos recusamos a comer gato por lebre.
Cumprimentos
MA


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