Sábado, 4 de Setembro de 2010

 

Para dar uma visão do que foi o apoio de alguns monárquicos como Rolão Preto a Delgado publicamos este artigo saído no Jornal A República da autoria do Dr. Rolão Preto.

 

Marcelo de Ataíde

 

 



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Rolão Preto em 1958 Rolão Preto

Por Raul Rego

Foi o último a cair daquele grupo de homens de talento, e quase todos de coragem , que fizeram a geração do Integralismo Lusitano[1]. Germinou o Integralismo para além fronteiras, em Espanha, na Bélgica, nas fronteiras, onde alguns combatiam e outros se encontravam exilados. Tomaria corpo em Portugal, aonde todos regressaram a breve trecho porque ninguém para esquecer e perdoar como esses republicanos de 1910 a 1926 [2]. António Sardinha dava-lhe um órgão com a «Nação Portuguesa» [3]; e, nos seus escritos, meio de jornalista de garra, meio de ensaísta, António Sardinha ia deitando a semente à terra. A semente da monarquia integral.

Desenvolvia-se e tomava corpo esse grupo, a par de outro em que se salientaram, desde o começo, Raul Proença, Sarmento Pimentel, Azeredo Perdigão, Aquilino Ribeiro, António Sérgio, Câmara Reis, Faria de Vasconcelos. Seria o da Seara Nova, estruturalmente democrata, mas apontando para uma reforma de mentalidade nacional, com seus laivos de socialismo já. Nos integralistas batiam-se, além de Sardinha, Hipólito Raposo, Afonso Lopes Vieira, Monsaraz, Luís de Almeida Braga. A um e outro grupo foram aderindo jovens de menos de 20 anos que eram a esperança. Rolão Preto estudava na Bélgica, depois em França e tomara parte nas incursões. Foi naturalmente para o Integralismo [4].

António Sardinha morria em 1925 e logo no ano seguinte caía sobre Portugal a ditadura em que se integraram os integralistas que da doutrina só queriam colher os frutos, continuando pela vida fora a lembrar os seus tempos de revolucionários. Fezas Vital, Pedro Teotónio Pereira, o mesmo que sucedera a Sardinha na direcção da «Nação Portuguesa»[5] seria depois o director do órgão defensor de todas as barbaridades contra o homem e a nação portuguesa . Alguns diziam que o Integralismo se realizara em Salazar, mas os homens de carácter, esses, protestavam. E não era só por palavras que bastantes conheceram de novo o exílio, a cadeia, e todos a mordaça censória. Paiva Couceiro que tanto simpatizava com eles, teria o seu último exílio, aos 77 anos, em 1938, por ordem do mesmo ditador, acolitado por homens que do integralismo haviam recebido as vantagens. A Luís de Almeida Braga havíamos de o ouvir, ao lado de causídicos republicanos e seareiros, elevar a sua voz tribunícia, de fino recorte literário e com uma coragem jamais indesmentida, no Tribunal de Santa Clara, a defender integralistas conspiradores, como Vasco de Carvalho, e, logo em seguida, a defender Henrique Galvão.

Rolão Preto teve caminhos agitados. Foi dos que não se renegou jamais a si mesmo, tivesse por vezes de roer o bem pouco e amargo pão do ostracismo. Com a alma cheia de esperanças entrara no Integralismo que a bota militar conspurcara em 1926 [6]; via depois alguns dos seus companheiros entrarem no rebanho dócil daqueles a quem o pastor distribuía umas côdeas, na administração, no parlamento-comédia, na diplomacia. Nos anos trinta, Rolão Preto rompe com seus camisas azuis, fascinado pela experiência italiana [7]. É a campanha nacional-sindicalista que arrastou milhares de jovens. É a época da eloquência altaneira, realista, de Rolão Preto. Falava ao nível do povo.

Seria logo abafado e teria de tomar mais uma vez o rumo da fronteira, enquanto alguns dos que antes os traziam nos escudos, se bandeassem também com o tirano sem alma e corruptor.

Foi escrevendo; mas a sua “Revolução” era abafada, como quantas vozes livres se erguessem em Portugal. Não havia lugar para dois pensamentos, não havia lugar para dois homens, era o monolitismo, era o totalitarismo negro, sem alma.

Do exílio voltou, mas com o luto na alma por nem sequer poder chegar a uma praça pública, estender os seus braços e chamar a si outros cidadãos. Lá fora ou cá dentro, era um exilado, como milhares de republicanos, como os seus adversários da Seara Nova. E eis que com antigos seareiros se encontrava, como acontecera já com Afonso Lopes Vieira, com Alçada Padez, com Luís de Almeida Braga e Hipólito Raposo.

Unia uns e outros o amor à liberdade, o amor à Pátria, a coragem de ter ideias e as saber defender. Foi com os velhos adversários, da Seara Nova, ou dos partidos republicanos, que Rolão Preto passou a conviver. E naqueles períodos em que se dizia haver liberdade de imprensa e de reunião, por ela ser condicionada por um crivo de malha mais larga, eis que o Rolão Preto volta aos tablados. Foi em 1952, na candidatura de Quintão Meireles e em 1958, na de Humberto Delgado. Conhecemo-lo nessa altura e vimo-lo, erecto e firme, a palavra saindo-lhe fácil, no liceu Camões, a protestar contra a tirania e a pedir menos riqueza para uns e mais pão para outros. Tudo se abafou com a censura e a PIDE, e desses discursos nem o eco chegava à rua.

Depois da campanha continuou a tentar. Meteu-se na sua Beira, com o seu pequenino rebanho pelos montes, feito lavrador de arado e pastor. De vez em quando escrevia para os jornais. Para qual? Para a “República”, onde era acolhido como companheiro o adversário de ontem. Pois não são irmãos os homens que querem a liberdade, os direitos iguais para todos?

Cremos ser dos últimos integralistas o que hoje vai a enterrar. Foi também um modelo de português, sincero, amigo, entusiasta. Não o aproveitou a Nação como a tantos outros, em todos os quadrantes do pensamento, porque a Nação esteve durante meio século transformada em coutada de um grupo. Só ele era o usufruidor e só ele tinha o direito de pensar e de falar. Felizmente que não há tirano que não morra.

Foi um homem livre que hoje acompanhamos ao cemitério.

 

Raúl Rego, "Rolão Preto", A Luta, 20 de Dezembro de 1977, pp. 1 e 11.

 

NOTAS

[1] Da primeira geração do Integralismo, José Pequito Rebelo estava ainda vivo e, como sempre, muito actuante na vida da Cidade. Só veio a falecer em 1983. Raul Rego, como se pode verificar, não teve a coragem de dizer quem não a tinha.

[2] O autor refere-se à amnistia que, em 1914, permitiu o retorno a Portugal dos exilados políticos monárquicos. Esta afirmação do autor, se for observada à luz dos muitos desacatos e violências praticadas entre os correlegionários do ideário do «5 de Outubro» - os assassínios de Machado Santos, António Granjo, Sidónio Pais, entre outros - revela, sem sombra de dúvida, uma preciosa vontade e capacidade de esquecimento e perdão.

[3] A 1ª série da revista Nação Portuguesa, publicada entre 1914 e 1916, foi dirigida por Alberto Monsaraz. António Sardinha só virá a assumir a direcção daquela revista em 1922, no início da 2ª série.

[4] Rolão Preto combateu nas incursões monárquicas comandadas por Paiva Couceiro (1911-12), e exilou-se na Bélgica, onde foi secretário da revista Alma Portuguesa, editada em 1913. E foi nessa revista que Luís de Almeida Braga cunhou a expressão "Integralismo Lusitano". Rolão Preto, embora fosse o mais jovem dos chamados "Mestres da primeira geração do IL", é mais antigo no Integralismo do que António Sardinha (convertido ao ideário monárquico apenas em 1913), Alberto Monsaraz ou Pequito Rebelo.

[5] Sem o nomear, o autor refere-se aqui também a Manuel Múrias, que consumou a sua dissidência do Integralismo em 1928. Recorde-se outras importantes dissidências do Integralismo: em 1927, desvincularam-se José Maria Ribeiro da Silva, Pedro Teotónio Pereira, Rodrigues Cavalheiro, Marcelo Caetano, Pedro de Moura e Sá; em 1929, deu-se a ruptura definitiva de Teotónio Pereira e Marcelo Caetano, dissolvendo o «Instituto António Sardinha»; em 1930, deu-se a dissidência de João do Amaral.

[6] Uma interpretação sem correspondência nos factos: 1º) A Ditadura Militar foi formal e rigorosamente estabelecida por um homem do «5 de Outubro» - o comandante Mendes Cabeçadas; 2º) o Integralismo Lusitano - e Rolão Preto manteve-se sempre no campo integralista, mesmo quando dirigiu com Alberto de Monsaraz o Movimento Nacional-Sindicalista - demarcou-se da Ditadura após o afastamento do general Gomes da Costa; 3º) o Integralismo Lusitano sempre reivindicou as suas responsabilidades na preparação do «28 de Maio» e no programa de Governo de Gomes da Gosta, nunca se sentindo conspurcado, bem pelo contrário.

[7]Rolão Preto e Alberto de Monsaraz criaram o Movimento Nacional-Sindicalista (MNS) e o jornalRevolução, sem entrar em ruptura com o Integralismo Lusitano. Hipólito Raposo e Luís de Almeida Braga, por exemplo, e apesar de alguma distância na acção, apoiaram clara e publicamente os «camisas azuis». Através do MNS, os integralistas pretenderam assumir a direcção desse vasto movimento de simpatia que o exemplo da Itália fascista estava a suscitar entre a juventude das academias. Quando alguns jovens dirigentes dos «camisas azuis» trocaram o Nacional-Sindicalismo pelo Estado Novo, revelou-se o falhanço dessa estratégia. Na verdade, foi o Estado Novo, quem logrou captar a juventude influenciada pelo estatismo modernista do fascismo. Quando Rolão Preto foi preso e exilado, estava já isolado de parte significativa dos «camisas azuis», precisamente porque nunca deixou de defender a doutrina política do Integralismo Lusitano, de base sindicalista, comunitária, personalista-cristã, e, como tal, contrária ao "totalitarismo divinizador do Estado" próprio do fascismo (palavras de R. Preto). As doutrinas do fascismo estavam então já começando a ser adoptadas pelo Estado Novo, em alguns aspectos decisivos - Partido único, corporativismo de Estado, etc. Cf. Justiça! (1936) entrevista ao Diário de Lisboa (1945). Luís de Almeida Braga pronunciou-se no mesmo sentido em Dor e Amor de Portugal.

[Apontamento introdutório e notas de José Manuel Quintas,  26 de Outubro de 2004 in

http://www.angelfire.com/pq/unica/il_frp_1977_raul_rego_rolao_preto_in_a_Luta.htm

 

A Loja Raul Rego congratula-se que o próximo dia 5 de Outubro seja um dia de união entre todos os portugueses, segundo diz o Público de ontem, por desejo de Cavaco e  duma Comissão que se dedica a festejar o Centenário daquilo que Rolão Preto chamava o ''bambúrrio da Rotunda''.

 

Estando todos os órgãos oficiais e oficiosos a festejar o centenário, a Petição com a ajuda da Loja Raul Rego de que é Comendador do 33º Grau o dr. Miguel Abrantes resolveu aderir à política unionista.

 

E dá a sua contribuição reproduzindo um histórico artigo do patrono da Loja, representante indomável da luta contra a censura em Portugal, inimigo irreconciliável de fascistas e comunistas, Grão-Mestre do Grande Oriente Lusitano (quando a Maçonaria Portuguesa permanecia fiel aos postulados liberais dum dos seus fundadores, el-Rei D.Pedro IV, o pai da Liberdade em Portugal) e português de lei.

 

O artigo retrata a figura do primeiro fascista português, Rolão Preto, que depois de tentar convencer Salazar a ser um mussoliniano, passou a ser um inimigo feroz do Ditador e um irredutível combatente pela Monarquia e pela Liberdade.

 

Nada melhor que o mais duro dos republicanos elogiando o mais duro dos monárquicos, para unir os portugueses.

 

Marcello de Ataíde, da Obra



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