O Jazigo de A. Herculano
À portaria do mosteiro augustiniano da Piedade, em Santarém, chegou em 1762 um homem na flor dos anos a pedir o hábito. Mostrou pelos seus documentos chamar-se João Correia Botelho, e ser de Vila Real de Trás-os-Montes. Viera de longe propelido por uma grande catástrofe. A profissão era o acto final de uma tragédia que eu escrevia frouxamente nesta minha idade glacial, se tivesse vida para urdir o romance intitulado os Brocas. Como a história é enredada e de longas complicações, nem ainda muito em escorço posso antecipá-la. Se eu morrer, como é de esperar da medicina, com a malograda esperança de escrever este livro, algum dos meus sobrinhos encontrará nos meus papéis os elementos orgânicos de uma história curisa e recreativa.
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O pai do frade augustiniano era Domingos Correia Botelho, meu terceiro avô paterno. Este homem casara duas vezes. Quando, já velho, contraíu segundas núpcias, entregou aos filhos da primeira consorte os seus avultados patrimónios. João Correia, ao vestir o hábito de agostinho descalço, era rico. O outro filho, Manuel Correia Botelho, meu bisavô, residiu em Vila Real. Havia mais duas filhas que professaram em um mosteiro de Abrantes. E, como a segunda esposa lhe moresse, o viúvo, com um filho e duas meninas do segundo matrimónio, foi residir em Santarém, onde o chamavam o amor e a saudade do seu desgraçado João.
Domingos Correia morreu à volta dos oitenta anos, e confiou à protecção do filho frade os seus meios-irmãos José Luís, Ana Bernardina e Joana.
Em nome de José Luís Correia Botelho, comprou frei João a quinta de Gualdim, na Azóia de Baixo, onde foi residir a família. Depois, ainda a expensas do frade, uniram-se à quinta algumas propriedades circunvizinhas, esculpiram na casa o seu brasão de armas e aí permaneceram até que este ramo da família Correia Botelho, no lapso de vinte e cinco anos, se extinguiu.
José Luís, cavaleiro professo na Ordem de Cristo, dotara sua irmã Ana Bernardina com a quinta de Gualdim e suas pertenças, para casar com um Ferreira Mendes. Por morte deste sujeito, casou D. Ana, em 1794, com Pedro Vieira Gorjão, da Vila de Torres.
Não teve D. Ana filhos de algum dos maridos; mas em 1807 chamou para a sua companhia um afilhado e sobrinho do segundo esposo, que também se chamou Pedro Vieira Gorjão.
José Luís Correia Botelho faleceu em 4 de Março de 1808, e sua irmã em 1811, legando os seus bens ao afilhado Pedro, sobrinho de seu marido. Este herdeiro universal dos bens comprados pelo frade, veio a ser o general de brigada Pedro Vieira Gorjão, que nascera a 28 de Maio de 1806, e faleceu na quinta de Gualdim em 9 de Agosto de 1870.
Aquele general foi, como é notório, particular amigo de Herculano. É também sabido que o cadáver do egrégio historiador, sete anos depois, foi encerrado no jazigo do seu defunto amigo.
Eu não sei se o general Gorjão removeu do carneiro da capela de Gualdim ou do pavimento da igreja da Azóia para o jazigo construído no adro os ossos dos Correias Botelhos, e especialmente os da sua madrinha, que privara os consanguíneos da herança para lha transmitir a ele. É natural que sim.
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(…)Conjecturando, pois, que os ossos de A. Herculano esperam a ressurreição da carne, de camaradagem com meu terceiro avô, Domingos Correia Botelho, sinto extraordinária alegria, antevendo o meu antepassado, evidentemente um bronco analfabeto, ao lado do primeiro historiador da Península, no dia do juízo universal!
Por outro lado, contrista-me a ideia de que A. Herculano, na congregação cosmopolita de Josafat- onde se há-de operar a reorganização mucosa e celular dos estômagos e dos fígados- sentirá pejo de se sentir ao lado de uns companheiros de jazigo que foram infamados de judeus. Porque meu tio-bisavô José Luís Correia Botelho (horresco referens!) quando professou na Ordem de Cristo em 1788, viu-se em pancas para contraditar as testemunhas do inquérito que uniformemente aseveravam ser ele terceiro neto do cavaleiro de Sant’Iago, Martim Machado Botelho, e da judia de Vila Real, Raquel Mendes. Ora eu, acreditando por justos motivos que as testemunhas, todas fidalgos de Vila Real, juraram a pura verdade, presumo piedosamente que a veneranda viúva de A. Herculano e seus amigos, por ignorância, colocaram em péssima companhia os ossos do plangente cantor da Paixão de Jesus da Galileia, crucificado pelos judeus. Além disso, a senhora D. Guiomar Torresão que visitou Vale de Lobos e a sepultura do insigne Mestre no adro da igraja de Azóia, escreveu por esse tempo uns lucilantes artigos em que deixava entrever o catolicismo do autor da Voz do Profeta nestas expressões eloquentes…Entrámos na capela (em casa de Herculano) no extremo da qual se vê um altar ricamente ornamentdo de lavores doirados e guarnecidos de valiosas imagens de uma alvura marfínea que destacam na penumbra recortando os seus bustos seráficos. E acrescenta com literária emoção: Instintivamente os nossos lábios murmuram ali a doce “PREGHIERA” que A. Herculano põe aos pés do Crucificado do admirável prefácio do “PÁROCO DE ALDEIA” e pergunta-se em que obscuro ponto de casuística se fundavam esses juízes da cnsciência humana que ousaram chamar ateu ao mais crente e virtuoso de todos os espíritos dissidentes do velho dogma católico…
Também o Sr. Oliveira Martins, sopesando a consciência religiosa do preclaro escritor, nos diz no “PORTUGAL CONTEMPORÂNEO” que Deus era para Herculano o deus cristão.
Pois, não obstante a capela e as imagens idolátricas dos santos em altares ricamente ornamentados- tanto monta que sejam belas esculturas como grosseiros manipanços- a minha razão, reagindo aos escrúpulos, sugere-me que Alexandre Herculano, o incomparável autor da Origem e Estabelecimento da Inquisição em Portugal- ele que nos fez chorar sobre a sorte desastrosa dos hebreus- não se envergonhará de ressurgir da sua primeira para a segunda imortalidade entre os obscuros e malsinados descendentes de Raquel Mendes, a judia, por alcunha a Barbada, minha 5.ª avó.
Camilo Castelo Branco, Boémia de Espírito
dedicado ao furor sionista do PSD por Marcello de Ataíde
PS- Façam o favor de não mandar a quinta-avó de Camilo ao barbeiro......
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