Segunda-feira, 30 de Agosto de 2010

O Doutor Candeias é autor duma obra importante e de qualidade em domínios da História de Abrantes e da sua província natal, a Beira-Baixa.

 

Doutor Joaquim Candeias Silva

Foto do Jornal de Alferrarede

 

Mas nenhum historiador (incluindo o rural João Pico) está isento de erros ou de lapsos que devem ser corrigidos paternalmente, sem acrimónia, porque a História é sempre uma obra em construção.

 

 

Sustentou o Doutor Candeias Silva
na sua obra

 

 

 

que D.Lopo estaria representado num fresco da Biblioteca Picollomini no Duomo ou seja na Catedral de Siena,

 

 

D.Lopo  fazia parte do séquito da Infanta D.Leonor, já Imperatriz, porque casara em Lisboa por procuração  com o Imperador do Sacro-Império Romano-Germânico Frederico III. A irmã de Afonso V encontrou-se em Siena com o seu marido, sendo a pomposa cerimónia representada no fresco em causa. Foi anfitrião do encontro imperial Eneas Sílvio Piccollomini, Bispo de Siena, grande humanista, mais tarde Papa com o nome de Pio II.

 

A foto representa a Biblioteca Piccolomini, no Duomo, onde o grande pintor Pintoricchio representou em admiráveis frescos vários passos da vida deste Papa.

 

Um dos frescos representa o encontro entre a Infanta lusa e o Imperador, fresco que passamos a mostrar com mais detalhe:

imagem ver aqui

 

O Doutor Candeias a página 30 da sua interessante obra (donde lhe surgiu, parece-nos a sua saudável fixação pelos Almeidas) sugere que uma das personagens seria  Lopo de Almeida.

 

 

Candeias segue a identificação proposta pela venerável Mestra de História Económica Portuguesa, Virgínia Rau que foi uma das primeiras pessoas a chamar a atenção para o percurso do 1º Conde Abrantino, de que não era conhecida nenhuma representação gráfica.

 

 

Mas esquece duas coisas importantes:

 

Virgínia Rau não era historiadora de Arte.

 

E ela não afirma que se trata de D.Lopo.....

 

Ela diz : ''Nos cavaleiros , vestidos de escuro, que faziam parte do séquito da Infanta, poderemos ver nós os retratos do nosso Lopo de Almeida e do seu companheiro o Dr.João Fernandes da Silveira? Ë possível, é muito provável.....''

 

E numa nota de pé de página especifica ''Ver na reprodução (...) as duas figuras de negro , à direita e por detrás da Infanta e das suas damas; uma delas ostenta no manto uma Cruz de Malta. Será este o   Dr.João Fernandes da Silveira, armado cavaleiro em Roma, pelo Imperador??'

 

(V. Rau, ''Aspectos do ''trato'' da ''adiça'' e da ''pescaria do ''coral'' nos finais do século XV'' , in Estudos de História Medieval,Editorial Presença, Lix, 1986, p. 147)

 

 

 

 

Virgínia Rau traça a interrogação não afirma, sugere, que com bastante probabilidade, possam ser Lopo de Almeida e João Fernandes da Silveira.

 

Vamos vê-los com mais pormenor:

 

D.Lopo seria o da direita, o Dr. Silveira o que leva a Cruz de Malta.

 

As dúvidas sugeridas por Virgínia Rua continuam a ser mantidas na bibliografia portuguesa recente, por exemplo Humberto Baquero Moreno e Isabel Vaz de Freitas in A Corte de D.Afonso V -O Tempo e os Homens'' (1986) escrevem: ''Entre os elementos do séquito representados encontra-se provavelmente  Lopo de Almeida e João Fernandes da Silveira''.

 

A probabilidade é mantida mas nenhum destes autores se atreve a identificar as personagens.

 

E a agora a pergunta: foi o Doutor Candeias a Siena e preocupou-se em ver os frescos in situ e ler a bibliografia italiana sobre esta obra prima de Pintoricchio?

 

Se foi, terá comprado um guia da catedral ou mais especificamente um guia da Biblioteca Piccolomini?

 

 

Porque teria bastado uma consulta a esta obra de divulgação turística de Alessandro Cecchi, Scale Firenze, Florença, 1991, para verificar que a figura que Virgínia Rau apontou como sendo possivelmente Lopo de Almeida, não o pode ser.

 

Ora se os próprios especialistas italianos têm dificuldade em identificar algumas das personagens do fresco, não há problemas porém em  identificar o homem da cruz de Malta como o membro da Fábrica da Catedral Alberto Aringhieri, porque ele foi representado também por Pintoricchio num dos frescos da capela  de São João da Catedral (1504-06).

 

Da mesma forma a personagem onde Virgínia Rau supôs ver Lopo de Almeida é fácil de identificar, tratando-se dum parente do futuro Pio II, Andrea di Nanni Piccolomini, estando a seu lado a sua mulher Agnese di Gabriele Francesco Farnese.

 

Onde figura uma referência a Lopo de Almeida  é na coluna comemorativa de mármore visível no fresco mandada levantar pelo povo de Siena.

O próprio Bispo (depois papa Pio II) diz nos seus Comentários ''Sobre este local  pouco tempo depois os sienenses levantaram uma coluna de mármore, monumento destinado a recordar à posteridade que neste lugar se viram pela primeira vez o Imperador vindo do Oriente e a Imperatriz vinda de Ocidente''.

 

Esta nota pretende apenas aclarar que infelizmente não dispomos de nenhuma representação gráfica conhecida do primeiro Conde de Abrantes.

 

Se alguém o quiser representar por favor não o pinte com a cara dum patrício italiano, membro duma poderosa família pontifícia.

 

Porque um Almeida não é um Piccolomini......

 

Marcello de Noronha

 

Nota: Vai este texto dedicado ao Eduardo Campos que se fosse vivo teria sido um dos primeiros a assinar a petição. Não se pretende entrar em polémica com ninguém. Apenas elucidar um passo da história abrantina....



publicado por porabrantes às 10:49 | link do post

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