Segunda-feira, 30 de Agosto de 2010

Veríssimo Serrão foi o grande apoiante da transformação do Doutor Candeias no maior especialista mundial em ''Almeidas'' segundo a douta opinião duma  gentil autarca abrantina.

 

Esperamos que Veríssimo Serrão apesar dos seus 85 anos, carregados de honrarias e comendas, ainda possa ser o orientador da tese de doutoramento de João Pico sobre ''Jota Pimenta ou como o Souto urbanizou Portugal''.

 

 

Beja Santos dedicou num dos últimos números do Ribatejo uma análise divertida ao último volume da ''História de Portugal'' do Mestre de Candeias Silva. Reproduzimo-la com a devida vénia:

Beja Santos . Foto Ribatejo

 

O Governo de Salazar por Veríssimo Serrão

por Beja Santos

 

O Prof. Joaquim Veríssimo Serrão tem uma obra científica de inegável valor. É autor de três centenas de trabalhos de investigação sobre temas da história portuguesa, grande parte deles centrados nos séculos XV a XVII; foi presidente da Academia de História durante cerca de 30 anos, é detentor de vários doutoramentos, foi distinguido com o Prémio Príncipe das Astúrias em Ciências Sociais em 1995. Encetou nos anos 70 uma história de Portugal que acaba de dar à estampa o seu 18º volume. É um publicista corajoso, conhecemos a sua amizade indefectível pelo Professor Marcello Caetano, nunca escondeu a sua admiração incondicional pelo último presidente do Conselho; e, conforme se pode comprovar da leitura integral deste volume da história de Portugal que compreende o último período da governação de Salazar (1960 – 1968) torna essa coragem uma obstinação reescrevendo a história vista com pura hagiografia, imaginada pelos directos protagonistas: Salazar e os seus seguidores mais próximos. Por muito que espante o leitor, as fontes dilectas do historiador são os discursos de Salazar, as memórias do almirante Thomaz e de Franco Nogueira. E o Diário do Governo.

É incompreensível como um historiador se pode zangar com uma mudança de regime e ver os factos descritos sem qualquer contraditório. A descolonização é apresentada como um conluio medonho entre a União Soviética e o Terceiro Mundo, a que se juntaram alguns apêndices como os partidos socialistas europeus. O presidente Kennedy nunca existiu. Os verdadeiros democratas acreditavam no Portugal ultramarino, fossem ele Norton de Matos ou Jaime Cortesão. À pergunta se Portugal foi uma nação colonialista, o historiador põe a resposta em Salazar: “Estamos em África há 400 anos, o que é um pouco mais que ter chegado ontem. Levámos uma doutrina, o que é diferente de ser levados por um interesse. Estamos com uma política que a autoridade vai executando e defendendo, o que é distinto de abandonar aos chamados ventos da história os destinos humanos”. Ou seja, não é preciso interpretar a História, Salazar já disse tudo: é pena não se ficar a saber bem o que é que se fez durante 400 anos, que tipo de doutrina moveu o colonizador e os termos da autoridade desenvolvida. Sabe-se, por exemplo, que os guineenses não falavam praticamente a língua portuguesa e que a chamada “pacificação” acabou em 1936; que os indígenas não tinham direito a voto, portugueses eram os assimilados e que a doutrina, na ausência da autoridade portuguesa, depois do tráfico de escravos, era ditada pela CUF. Estão escritos centenas de livros, milhares de ensaios sobre o colonialismo e a presença portuguesa em África mas o historiador abalança-se na catadupa de acontecimentos sempre guiado pelo Diário do Governo, pelos discursos de Salazar e pela imparcialidade de Franco Nogueira. É uma história de eventos, de remodelações, nomeações, de visitas de estadistas, de viagens de Thomaz. Segue-se o ataque da União Indiana e o historiador anda à procura de um culpado e vem dizer que o embaixador Franco Nogueira defendeu Salazar, até Amália Rodrigues se indignou com a anexação do Estado Português da Índia, o que dá mais peso a toda a indignação nacional. Seguem-se mais discursos, novas remodelações, a crise estudantil de 1962 contada como se fosse uma reportagem, há uma homenagem ao general Santos Costa, nesse ano de 1962 morreu Júlio Dantas que, como é largamente sabido, é uma figura incontornável depois de Fernando Pessoa. Adriano Moreira desloca-se a Madrid. Em 1 de Janeiro de 1963 foi proibido o exercício da prostituição. A roda-viva das remodelações parece não ter fim. A política de defesa do ultramar revela-se inquebrantável. O ministro Franco Nogueira volta às Nações Unidas, registou-se uma comoção mundial. A história é só feita de factos relevantes, caso da visita dos príncipes Rainier e Grace do Mónaco. Aliás, a princesa chegou antes do marido e assistiu no Teatro de S. Carlos à representação de uma ópera. Foram inauguradas as novas instalações da Caixa Geral de Depósitos, no Calhariz. Cascais celebrou o 6º centenário. Morre o marechal Craveiro Lopes e Salazar vai à frente do féretro. As coisas agravam-se em África, tanto na Guiné como em Moçambique. Portugal ganha uma dimensão europeia no Futebol. É assassinado o general Humberto Delgado e Salazar vem dizer que foi morto pelos seus correligionários. Temos mais remodelações ministeriais. O almirante Thomaz foi reeleito. Franco Nogueira volta às Nações Unidas e ofuscou-as. O mês de Fevereiro de 1966 foi negativo para a agricultura. O Salazar falou ao mundo através do jornal The New York Times, mandou recados, agitou a Casa Branca. Salazar vai até Braga, para as comemorações do 40º aniversário da Revolução do 28 de Maio, comprou bilhete de avião a expensas suas, parece que o meio de transporte não foi do seu agrado. Inevitavelmente, estivemos à beira de ganhar o campeonato do mundo de futebol nesse ano, mas inaugurou-se a Ponte Salazar e o Panteão Nacional. 1967 viu chegar os restos mortais de D. Miguel e de D. Maria Adelaide ao mosteiro de S. Vicente. A seguir temos a visita do Papa Paulo VI, foi uma viagem que projectou o nome de Portugal para todos os recantos do mundo cristão. Houve inúmeras visitas e inaugurações do almirante Thomaz. Assim chegamos a 1968 e o historiador questiona se o doutor Salazar sentiria que se estava a aproximar o fim. A agitação universitária voltou e o famoso coreógrafo Maurice Béjart foi expulso por ter pedido um minuto de silêncio contra todas as formas de violência e ditadura. O doutor Salazar, soube-se mais tarde pela sua governanta, caiu de uma cadeira de repouso, no início de Agosto, sofreu de um hematoma, foi operado e depois caiu em coma. A sua carreira política tinha findado. Começou a luta pela sucessão, naturalmente que o nome do Professor Marcello Caetano se impôs, mesmo contestado pelos seus críticos. Assim se encerrou o período da governação política de Salazar, iniciada a 5 de Julho de 1932. E escreve o historiador: “O período da II República continuava agora sob a égide de um novo responsável, cuja existência será traçada no Volume XIX da presente História de Portugal”.

Como o Doutor Veríssimo Serrão foi incondicional do Professor Marcello Caetano, e tem já vasta obra a defender a sua política e a manifestar-lhe amizade, é extremamente difícil imaginar o desfecho, em termos de rigor e imparcialidade, do novo volume. Pena é que o Dr. Franco Nogueira não possa abonar as qualidades do Professor Marcello Caetano, senão ele iria aparecer, incontornavelmente, ao lado das memórias do almirante Thomaz.

 

(in Ribatejo)

 

Comentário: gostávamos de saber como é que o 25 de Abril traumatizou tanto Veríssimo Serrão que um homem que foi do MUD nos tempos difíceis deu em nostálgico do Estado Novo depois de Abril......

 

Elogiamos o espírito de resistência de Candeias Silva que ainda continua socialista, tendo conseguido resistir ao apostolado marcellista do Veríssimo.

 

Marcello de Ataíde



publicado por porabrantes às 16:05 | link do post | comentar

1 comentário:
De Pinto dos Santos a 4 de Novembro de 2012 às 13:15
Ao manter o seu pensamento com Prejuizos imediatos para o próprio,revela honestidade e a historia vai demonstrar a realidade.
Infelizmente, estamos a assistir exemplos degradantes com consequências graves e imprevisiveis.
O maior adversário de todos,são as pessoas integras.


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