Segunda-feira, 4 de Outubro de 2010

Vidas:

Nas mãos do osteopata

Ricardo Duarte Freitas


 

Tem 61 anos mas a idade não lhe tem subtraído flexibilidade, vigor ou vitalidade ao seu corpo de 106 quilos. Depois de ter feito a espargata com a facilidade de um jovem ginasta - não obstante ter batido no fundo de uma piscina há 23 anos, de que resultou 36 pontos na cabeça e múltiplas fracturas cervicais e lombares por esmagamento - Fernando Correia diz que continua activo no judo, pisando os tatamis praticamente todas as semanas.
O osteopata natural de Abrantes vem à Madeira mensalmente, consultando cerca de meia centena de pacientes. As consultas decorrem num hotel do Funchal. Fernando Correia é surdo e é o paciente quem preenche a ficha. Sofre de surdez desde os seis anos, quando apanhou sarampo; mas fala fluentemente. Há dez anos, um novo aparelho auditivo de alta frequência, destruiu o que restava do ouvido, ficando totalmente surdo. 'O judo ajudou-me a ter um controlo emocional muito grande e nunca andei com tristeza ou deprimido', apontou.
A osteopatia e o judo sempre fizeram parte da vida de Fernando Correia. Judoca activo, aos 36 anos sagrou-se vice-campeão no mundial de judo, em Dunkerque (França), em 1982, na versão para deficientes auditivos. Sete anos depois, conquistou o bronze no mundial de Tóquio (Japão). Neste último, chegou a prestar assitência a um atleta italiano, Francesco Faraone, que teve uma 'grave lesão na cervical' no termo do apuramento para a final de karaté em que se apurou. À noite, o osteopata judoca português dirigiu-se a Francesco e prestou-lhe o auxilio possível para a sua recuperação. No dia seguinte, o campeão de karaté italiano apresentou-se para a final e sagrou-se campeão do Mundo. Os juízes japoneses suspeitaram de 'dopping' e inquiriram o italiano que afirmou que tinha recuperado graças às mãos de 'Fernando de Portugal'.
O italiano só foi ilibado depois de Fernando Correia ter provado a sua eficácia, tratando ali mesmo voluntários sacados na assistência e que tinham problemas relacionados com a coluna. Logo a seguir, o osteopata dispensou convites para trabalhar no Japão.
O interesse pela medicina alternativa começou aos 19 anos com o estudo de massagens. Aos 22 anos conheceu Flavio Zanata, um osteopata e acupuntor brasileiro já falecido, com o qual iniciou o estudo da osteopatia. 'A partir daí, fui estudando tudo quanto era publicação sobre a matéria e tive mais tarde a oportunidade de fazer cursos que me permitiram a profissionalização'.
Como era treinador de judo, os seus alunos faziam frequentemente descompressão no final dos treinos, permitindo-lhe aprofundar e desenvolver as técnicas de manipulação da coluna vertebral. 'Foi um percurso que durou 12 anos até me considerar um bom profissional', diz. Chegou a ter 25 consultórios no Continente, Madeira, Açores, Paris e Luxemburgo, de colaboração com uma empresa que distribuía produtos naturais.
PREVENIR DOENÇAS COMO 'ALZHEIMER'


A figura do osteopata é serena, inspira tranquilidade e tem uma postura correcta. A coluna cervical é o cerne da vida. Diz, sem querer ser especulativo, que as disfunções na coluna cervical pode desembocar em doenças como 'Alzheimer' (doença degenerativa do cérebro caracterizada por uma perda das faculdades cognitivas superiores, manifestando-se inicialmente por alterações da memória episódica). 'D. Jasmina foi um desses casos e, quando ma trouxeram parecia uma morta viva. A descompressão da cervical permitiu melhorar o funcionamento da circulação cerebral e o fluxo respiratório. O sangue passou a circular na cabeça transportando oxigénio em quantidades suficientes que permitiram o seu restabelecimento'. Após a terceira sessão, Jasmina de 81 anos já sabia quem era, conhecia os seus e tinha recuperado a memória.
A osteopatia é uma ciência e uma terapia que considera fundamental 'para garantir e recuperar as comunicações que o cérebro transmite através da espinal-medula e suas ramificações'. Fernando Correia considera quatro importantes grupos ou sistemas: nervoso, circulatório, orgânico e muscular.
Os problemas surgem quando as articulações da coluna oxidam e bloqueiam, algo que admite poder acontecer com naturalidade, em qualquer fase da vida. 'Esta situação gera acções compressivas sobre as raízes nervosas, reduzindo as comunicações e consequentemente a nossa capacidade funcional em relação às funções com as quais o cérebro não comunica ou não comunica bem'.
O método pode impressionar, mas tem dado resultado, havendo casos de recuperação surpreendentes. O osteopata realiza 'mobilizações, manipulações e massagens, procurando restabelecer o equilíbrio musculo-esquelético, obtendo condições através das quais o cérebro, comunicando, vai reparar e regenerar o sistema'. De resto, esta ciência crê na capacidade regenerativa do próprio corpo.
O ÚLTIMO RECURSO


A maioria das pessoas que procuram Fernando Correia, já esgotaram todas as possibilidades de recuperação que a medicina convencial oferece. Eva Palmira Fernandes foi um desses casos. O osteopata recorda que a senhora de 89 anos, natural do Funchal, 'sofria as agruras que a sua coluna maltratada, por vários trambolhões lhe proporcionava'.
Durante quase sete anos, a idosa foi assistida com sucesso por Fernando Correia, até que um incidente doméstico (queda) a atirou para uma cama do hospital. Foi alimentada através de uma sonda naso-gástrica e a 'medicação mais adequada a dores intensas não lhe permitia alívio'. Eva era incapaz de esticar as pernas, de se sentar ou de se virar na cama. Um dia, a família foi notificada que a idosa, então quase com 96 anos, teria alta e regressaria a casa, pois já nada mais poderia ser feito.
Fernando Correia conta que a sujeitou a 'cuidadosas mobilizações e manipulações vertebrais', mas a situação pouco parecia ter mudado. As dores abrandaram e, a partir do segundo dia, a senhora já era capaz de esticar as pernas, rodar o corpo e domir. Nesse mesmo dia já se levantou e, 'o enfermeiro que a assistia nos seus últimos dias de vida, pensou que ela tinha morrido quando viu a cama vazia'. Afinal, ela estava na sala a ver televisão, aponta o osteopata, entre um sorriso. Recorda, numa das visitas ao domicílio, a reacção da idosa: 'Olha o homem dos ossos!'.
'Lamentavelmente, as últimas chuvadas provocaram infiltrações no telhado da sua casa e molharam a sua cama'. A 15 de Abril último, já com 99 anos de idade, Eva Fernandes viria a sucumbir, vítima de pneumonia, lamenta profundamente o osteopata.
No entanto, sobram os registos de recuperações conseguidas. Testemunhos que, por vezes, encontram espaço nas páginas dos jornais. O osteopata ainda guarda a camisola da equipa de rugby do Benfica, que lhe foi oferecida após ter conseguido restabelecer a mobilidade de dois atletas 'encarnados', hospedados no mesmo hotel do Funchal, há pouco mais de dois anos.
O que é a osteopatia?


A osteopatia é uma terapia que trabalha a estrutura do corpo (esqueleto, músculos, ligamentos), de maneira a aliviar a dor, restabelecer a capacidade de movimento e a saúde, em geral. Provém do grego 'osteo' (ossos) e 'patia' (doença)'.
A origem


Desde os tempos remotos que o homem percebeu a necessidade de mobilizar (alongar, esticar) e manipular (acção forçada, rápida e breve, em percurso muito reduzido, ao nível das articulações da coluna vertebral) o sistema músculo-esquelético, para controlar a dor e as disfunções relacionadas. Hipócrates e Galieno, célebres médicos Gregos, que viveram antes de Cristo, já faziam manipulações vertebrais e deixaram tratados escritos que chegaram aos nossos dias.
Na idade moderna surgiu em 1874 Andrew Taylor Still, Médico de Kansas City, que ficou celebrizado pelos seus métodos de tratamento a que chamou Osteopatia. É considerado literalmente o pai da Osteopatia.
O conceito


A osteopatia defende que 'a estrutura rege as funções'. Este continua a ser o princípio base da osteopatia moderna. As falhas de comunicação cerebral, relacionadas com uma deficiente estrutura, perturbam e causam as funções 'fora de serviço'; geram o desconforto e dão lugar à doença.
O método


A osteopatia desbloqueia e desfaz as compressões que limitam a comunicação que o cérebro tem de exercer. Restabelecida a comunicação, o cérebro repara e regenera o sistema. A recuperação das disfunções musculares e ósseas passa pelo relaxamento dos músculos e a quebra das tensões de pré-arrancamento das suas inserções ósseas em duas articulações.
Indicações


Os maus hábitos posturais no trabalho e no descanso, os acidentes pessoais e uma insuficiente ingestão de líquidos podem conduzir à morte por AVC ou ACV (imobilização de válvulas) ou asfixia (perturbações motoras do diafragma e a sua imobilização). A ansiedade ou depressão de causa desconhecida podem ter por base a insuficiência respiratória relacionada com compressões na cervical. O Síndrome de Alzeimer pode ter uma relação com insuficiente circulação cerebral combinada com perturbações motoras do diafragma. Aqui, o sangue não transporta oxigénio suficiente para o cérebro 'arrancar'.
Contra-indicações


A aplicação da osteopatia não visa produzir ruídos de desbloqueamento. Esses ruídos podem não ocorrer e as limitações da estrutura condicionam as oportunidades e o progresso dos tratamentos. Uma osteoporose profunda proíbe totalmente manipulações, embora possa possibilitar mobilizações do tipo de avaliação ou balanceios e ligeiras massagens. Os movimentos a executar, não podem causar sofrimento. A aplicação de qualquer tratamento tem que passar sempre por um diagnóstico e a informação precisa do que se pretende fazer. A oposição ou o medo do paciente, proíbe totalmente a aplicação de qualquer tratamento. A prudência recomenda que o paciente tenha o máximo cuidado com a escolha do especialista. A ausência de regulamentação não permite a fiscalização e a defesa do consumidor destes serviços.
O que diz a lei


A crescente pressão dos profissionais sérios e devidamente formados e enquadrados, levou o Estado português a elaborar a lei n.º 45/2003, de 22 de Agosto, para o exercício das 'Terapêuticas Não Convencionais'; compondo um grupo onde, além da osteopatia, aparecem a acupunctura, a homeopatia, a naturopatia, a fitoterapia e a quiropráxia. O Ministério da Saúde deveria tutelar estas actividades, mas a ausência da regulamentação desta lei não permite a fiscalização e controlo adequado por parte do Estado. Esta lacuna permite que qualquer um ostente categorias profissionais inexistentes e exerça as mais disparatadas funções.

 

in Revista Mais, 27 de Maio de 2007

 

publicado por Marcello de Noronha



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