Quinta-feira, 25 de Fevereiro de 2010

 

 


Número 28   ·    29 de Novembro de 2000

Pontes Lusófonas III, um traço das raízes

O que se faz com um traço gizado no papel? Casas, palácios, cabanas, ruínas, jardins? Paisagens com asas, que quase voam do chão, "arrancadas" ao difícil urbanismo que nos envolve. Pontes, todas elas. Foi destas paisagens que tratou o Encontro realizado em Brasília, em colaboração com a Faculdade de Arquitectura e Urbanismo, entre os dias 8 e 10 de Novembro, a terceira edição das Pontes Lusófonas.

O tema geral do Encontro, Arquite(c)tura, formas e texturas, dividia-se em quatro sub-temas, Arquitectura na Paisagem, Intervenção na Recuperação de Espaços, Formas Arquitectónicas e, ainda, Intervenção e Invenção.

Para além da programação específica, os cerca de 20 arquitectos reunidos em Brasília tiveram oportunidade de alargar o espaço de troca de experiências previsto, através de um excelente programa complementar, organizado por Rui Rasquilho, Director do Instituto Camões-Centro Cultural Português de Brasília, que abria novos espaços aos que as Pontes "desenhavam" nos debates: inauguração de uma exposição bibliográfica Arquitectura no Mundo Lusófono, A Arte do Azulejo em Portugal e um espectáculo de Chorinho do Grupo Manuel Oliveira, que foi para muitos uma revelação e a visita final à cidade-monumento conduzida pelo arquitecto Geraldo Batista.

A força deste Encontro ficou a dever-se à destreza com que os Arquite(c)tos presentes desenharam aquela que poderá ser a matriz de um projecto colectivo. De assinalar a contribuição da "parte" brasileira, empenhada e cuidadosa na forma como se misturou com os demais: Geraldo Nogueira Batista, coordenador fundamental para o (bom) andamento dos trabalhos, juntamente com Paulo Castilho, Vicente Barcelos, Antônio Carpinteiro, Haroldo Queirós. As "lições" de Lélé (João Filgueiras Lima) e Nestor Goulart Reis, e as intervenções de Lúcia Maria Sã Antunes, Frederico de Holanda, Ciro Lyra, Marco Antônio Galvão, Sérgio Parada, Paulo de Mello Zimbres, Carlos Córdova Coutinho.

Sentimentos, gestos e palavras fundiram-se, palavras ditas e entre-ditas, adjacentes da mesma problemática: ser homem e, arquitecto. As duas coisas, todos os dias, pondo quanto se é no mínimo que se faz, como dizia Pessoa, património de todos nós.

A segurança com que foi defendida uma linha de actuação, onde o papel do arquitecto se definia como um elemento fundamental no traçado de uma urbanidade mais consentânea com a dignidade humana, foi, por assim dizer o tal traço de que falávamos. Como se o traçado fosse perpétuo e o sujeito do enunciado um ser sem contingências.

Não é pois de estranhar a semântica que percorreu grande parte das apresentações, que nos remetia para uma espécie de corpo carinhosamente tratado: muro, pedra, árvore, poético e sensual, foram palavras que afloraram no decurso das apresentações como aliados fundadores do trabalho arquitectónico.

Quando André Mingas, de Angola, explicou em palavras breves um dos projectos realizados, era claro um discurso de sentimentos, que permitia aos presentes vê-lo sonhar com uma pátria menos imperfeita. Num discurso mais longo e detalhado, José Forjaz, de Moçambique, recontaria uma problemática semelhante.

Ao, longo de três dias, o público e os arqui(c)tetos foram-se encontrando, conhecendo e reconhecendo, tratando-se pelos nomes de casa: João Luís (Carrilho da Graça), João (Gomes da Silva), José (Adrião) e Pedro (Pacheco), Ricardo (Bak Gordon), Francisco e Manuel (Aires Mateus), António (Castel’Branco).

Um estudante brasileiro descreveu o Encontro como "um traço de raízes". Nada podia ser mais verdadeiro. Naquele lugar evocaram-se as lições dos grandes mestres, ergueram-se vontades, trocaram-se experiências, confessaram-se desejos de reescrever a história, mesmo nos seus confins mais distantes e desprotegidos, como as áreas suburbanas onde vive a maior parte da população que faz a história. E as casas.

Parte integrante desta vivência, foi a sessão de encerramento, que caberia a Maria Armandina Maia, Directora de Serviços de Acção Cultural Externa e coordenadora das Pontes Lusófonas desde a sua primeira edição, que leu o texto Pontes Lusófonas III, uma geografia de afectos, acolhido calorosamente pela assistência.

Jorge Couto, Presidente do Instituto Camões, fez o balanço do evento com três adjectivos: útil, enriquecedor e produtivo. Poucas vezes podemos dizer tanto em tão poucas palavras. Se tivermos em consideração os pontos levantados por António Jorge Delgado, de Cabo Verde, (criação de um fundo, inventariação e intervenção, pontos fulcrais numa perspectiva de arquitectura "lusófona"), e a decisão de realizar, a curto prazo, um Encontro de Arquitectos Lusófonos em Lisboa, facilmente percebemos a foz onde vai desaguar este rio. Ou estas Pontes.

 

 

 aqui



publicado por porabrantes às 21:52 | link do post

Comentar:
De
  (moderado)
Nome

Url

Email

Guardar Dados?

Este Blog tem comentários moderados

(moderado)
Ainda não tem um Blog no SAPO? Crie já um. É grátis.

Comentário

Máximo de 4300 caracteres




O dono deste Blog optou por gravar os IPs de quem comenta os seus posts.

ASSINE A PETIÇÃO

posts recentes

La Vanguardia destaca o p...

Gina Esteves, a aluna da ...

A vingança de Jeová

Voluntariado para combate...

Tenho o slogan

RIP Dr.Adelino Nogueira V...

Carreira Pombo para a Est...

Cabral de Moncada e o odi...

Assaltos nas Mouriscas (c...

Teatro no Tramagal (1974)

arquivos

Abril 2020

Março 2020

Fevereiro 2020

Janeiro 2020

Dezembro 2019

Novembro 2019

Outubro 2019

Setembro 2019

Agosto 2019

Julho 2019

Junho 2019

Maio 2019

Abril 2019

Março 2019

Fevereiro 2019

Janeiro 2019

Dezembro 2018

Novembro 2018

Outubro 2018

Setembro 2018

Agosto 2018

Julho 2018

Junho 2018

Maio 2018

Abril 2018

Março 2018

Fevereiro 2018

Janeiro 2018

Dezembro 2017

Novembro 2017

Outubro 2017

Setembro 2017

Agosto 2017

Julho 2017

Junho 2017

Maio 2017

Abril 2017

Março 2017

Fevereiro 2017

Janeiro 2017

Dezembro 2016

Novembro 2016

Outubro 2016

Setembro 2016

Agosto 2016

Julho 2016

Junho 2016

Maio 2016

Abril 2016

Março 2016

Fevereiro 2016

Janeiro 2016

Dezembro 2015

Novembro 2015

Outubro 2015

Setembro 2015

Agosto 2015

Julho 2015

Junho 2015

Maio 2015

Abril 2015

Março 2015

Fevereiro 2015

Janeiro 2015

Dezembro 2014

Novembro 2014

Outubro 2014

Setembro 2014

Agosto 2014

Julho 2014

Junho 2014

Maio 2014

Abril 2014

Março 2014

Fevereiro 2014

Janeiro 2014

Dezembro 2013

Novembro 2013

Outubro 2013

Setembro 2013

Agosto 2013

Julho 2013

Junho 2013

Maio 2013

Abril 2013

Março 2013

Fevereiro 2013

Janeiro 2013

Dezembro 2012

Novembro 2012

Outubro 2012

Setembro 2012

Agosto 2012

Julho 2012

Junho 2012

Maio 2012

Abril 2012

Março 2012

Fevereiro 2012

Janeiro 2012

Dezembro 2011

Novembro 2011

Outubro 2011

Setembro 2011

Agosto 2011

Julho 2011

Junho 2011

Maio 2011

Abril 2011

Março 2011

Fevereiro 2011

Janeiro 2011

Dezembro 2010

Novembro 2010

Outubro 2010

Setembro 2010

Agosto 2010

Julho 2010

Junho 2010

Maio 2010

Abril 2010

Março 2010

Fevereiro 2010

Janeiro 2010

Dezembro 2009

Novembro 2009

Outubro 2009

Setembro 2009

Agosto 2009

Julho 2009

tags

25 de abril

abrantaqua

abrantes

alferrarede

alvega

alves jana

ambiente

angola

antónio castel-branco

antónio colaço

antónio costa

aquapólis

armando fernandes

armindo silveira

arqueologia

assembleia municipal

bemposta

bibliografia abrantina

bloco de esquerda

bombeiros

brasil

cacique

candeias silva

carlos marques

carrilho da graça

cavaco

cdu

chefa

chmt

ciganos

cimt

cma

cónego graça

constância

convento de s.domingos

cria

crime

diocese de portalegre

duarte castel-branco

eucaliptos

eurico consciência

fátima

fogos

grupo lena

hospital de abrantes

hotel turismo de abrantes

humberto lopes

igreja

insegurança

ipt

isilda jana

jorge dias

jorge lacão

josé sócrates

jota pico

júlio bento

justiça

mação

maria do céu albuquerque

mário semedo

mário soares

mdf

miaa

miia

mirante

mouriscas

nelson carvalho

nova aliança

património

paulo falcão tavares

pcp

pego

pegop

pina da costa

portugal

ps

psd

psp

rocio de abrantes

rossio ao sul do tejo

rpp solar

rui serrano

salazar

santa casa

santana-maia leonardo

santarém

sardoal

saúde

segurança

smas

sócrates

solano de abreu

souto

teatro s.pedro

tejo

tomar

touros

tramagal

tribunais

tubucci

todas as tags

favoritos

Passeio a pé pelo Adro de...

links
Abril 2020
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4

5
6
7
8
9
10
11

12
13
14
15
16
17
18

19
20
21
22
23
24
25

26
27
28
29
30


mais sobre mim
blogs SAPO
subscrever feeds