Sábado, 17.05.14

 

 

 

Morreu recentemente o Senhor Coronel Mariano Tamagnini Barbosa, tio do nosso amigo Arquitecto, Doutor António Castel-Branco e visita habitual a Abrantes, é nosso dever apresentar este perfil dum português à antiga, moldado na escola de Fernão Mendes Pinto, com a devida vénia ao blogue Crónicas Macaenses

 

Mariano Tamagnini Barbosa: “o espião que nasceu em Santa Sancha”

Em homenagem ao ilustre macaense Mariano Tamagnini Barbosa, falecido em 27/03/2014 (vide postagem), com 94 anos, publico a história da sua vida (até 1996) e um episódio dele no papel de espião. As publicações a seguir têm como fonte, a Revista Macau de Dezembro de 1996 e o autor Eduardo Tomé:

Mariano Tamagnini (02)

Mariano Tamagnini Barbosa (foto da Revista Macau Dezembro de 1996)

O ESPIÃO QUE NASCEU EM SANTA SANCHA

Texto de autoria de Eduardo Tomé – Revista Macau edição de Dezembro de 1996

Nascido no Palácio da Praia Grande, a 27 de Maio de 1919, três meses depois seguiria com os pais para a metrópole. Os irmãos chamavam-lhe “o chinês”, pois era o único natural do território, tendo ele próprio muito orgulho em ser macaense. Com a segunda nomeação do pai como Governador de Macau, regressou em Dezembro de 1926, aqui frequentando a escola primária e o primeiro ano do Liceu, tendo como um dos seus amigos de então José dos Santos Ferreira, o “Adé”, grande cultor e poeta do patoá, a quem queria como um irmão e com quem se correspondia regularmente.

Em Fevereiro de 1931, Mariano Tamagnini voltou para Portugal, onde fez os estudos liceais na Escola Nacional, ao Largo da Anunciada, em Lisboa, pertencente a seu pai e ao general José Vicente de Freitas, que fora primeiro-ministro já na República.

Nutrindo uma profunda admiração pelo seu progenitor e encontrando-se este novamente em Macau, no seu terceiro mandato como Governador do território, correspondendo à vontade deste, aceitou preparar-se para vir a ser seu secretário, matriculando-se no Curso Superior Colonial, que concluiu com 15 valores, por ironia do destino, no mesmo ano em que seu pai faleceu.

Como aspirante e depois alferes, foi ajudante-de-campo do seu tio, o brigadeiro João Tamagnini Barbosa, comandante militar da ilha Terceira, nos Açores, onde conheceu o então major António Spfnola. Durante a guerra, em Outubro de 1943, aí assistiria ao desembarque autorizado das forças aliadas britânicas.

Regressado ao continente, contraiu matrimónio com Astri Lunde Wang, filha do ministro da Finlândia, de cuja união nasceria em Dezembro de 1952 o seu filho Miguel Ângelo, divorciando-se um ano mais tarde. Entretanto, acompanhou a missão militar portuguesa a Paris, à conferência dos Estados-Maiores Aliados, na NATO, matriculando-se na Faculdade de Direito de Coimbra, como aluno voluntário.

Em meados de 1953, já na patente de capitão, Mariano Tamagnini é colocado na repartição do gabinete do ministro da Defesa, coronel Santos Costa, onde chefia o Centro de Criptografia Nacional e NATO, transitando posteriormente para a Força Aérea, com idênticas funções no gabinete do chefe de estado-maior daquela arma.

Mariano Tamagnini (05)

Falando italiano, espanhol e alemão e dominando na perfeição inglês e francês, são-lhe confiadas diversas missões de acompanhamento junto de altas entidades estrangeiras de visita a Portugal, como no Verão de 1966, aquando da estada da princesa Margarida, de Inglaterra, ou, em 1960, do general Thomas D. White, chefe de estado-maior da Força Aérea norte-americana, o homem que no auge da “guerra fria” criou o célebre “telefone vermelho”. Nesse mesmo ano é nomeado para, juntamente com 26 oficiais superiores de diversos países, frequentar na base aérea de Sheppard, no Texas, o “Staff Intelligence Course”, digamos que um curso de espionagem, obtendo a terceira classificação. Talvez que alguns dos  corihecímentos adquiridos se revelassem mais tarde úteis, quando incumbido de desempenhar uma missão muito confidencial, que tinha Macau como objectivo.

Já como tenente-coronel é colocado no comando da 1ª Região Aérea, em Monsanto, e posteriormente como adjunto do comando da Zona Aérea dos Açores.  Entretanto, realizara um vasto programa de dinamização desportiva dentro da Força Aérea, tendo ele próprio vencido diversos troféus de ténis e feito parte de equipas de futebol re voibol vencedoras de campeonatos militares.

Em representação da FAP fez uma visita às diversas bases aéreas brasileiras, tendo efectuado por diversas vezes curtas missões em Cabo Verde e na Guiné.

Devido a sequelas de um antigo acidente aéreo. Mariano Tamagnini tem de ser internado na neurocirurgia do hospital militar de Val-de-Grâce, em Paris, onde permanece cinco anos em tratamento. Regressado a Portugal, é autorizado a exercer funções de administrador da Companhia Européia de Seguros e na direcção administrativa da Imprensa Nacional – Casa da Moeda.

No dia 4 de Março de 1974 parte para Macau, no maior dos secretismos, transportando duas malas pesando mais de 50 quilos, contendo notas de 500 patacas, totalizando então um valor facial de cerca de 900 mil contos. Após várias peripécias, a missão é cumprida e o dinheiro depositado nos cofres do BNU.

A seguir ao 25 de Abril vê-se obrigado a recusar um convite de António de Spínola para criar um gabinete de Macau, por não lhe parecerem reunidas as mínimas condições. Pouco tempo depois declina igualmente um convite para ser o primeiro embaixador de Portugal na Argélia. Como não se sentia identificado com os desmandos do chamado “processo revolucionário em curso”, aceita o convite do seu amigo Tahar Mekouar, embaixador de Marrocos, para fixar residência em Casablanca e dirigir a sociedade Moror, Ltd., virada para a colaboração luso-marroquina, tendo contribuído para a implantação naquele país de grandes empresas portuguesas, como a Companhia Portuguesa de Pescas, a Hidroeléctrica Portuguesa (de Cabora-Bassa), ou a Sorefame, então em sérias dificuldades e actualmente prosperando no mercado marroquino.

Em Casablanca, criaria posteriormente com um arquitecto marroquino uma empresa especializada na construção de piscinas e impermeabilizações, a Aquatec, ocupando a sua presidência, mantendo-se esta sociedade em plena actividade. Por razões familiares regressa a Portugal em 1989.

Registada em 1962, a Casa de Macau (CM) teve no coronel Tamagnini um dos seus fundadores e um dos seus presidentes, tendo igualmente participado em 1973 na primeira “romagem” ao território, levada a efeito pela CM. Pertence também à Associação da Força Aérea Portuguesa, de cuja direcção fez parte até há pouco tempo, tendo em Outubro de 1991 organizado uma outra “romagem” a Macau, ao todo 85 participantes, entre oficiais, sargentos e familiares, o que lhe deu particular satisfação, pois foi a primeira vez que tantos membros da Força Aérea estiveram no território, dado que ao longo da sua história apenas o Exército e a Marinha aí prestaram comissões de serviço. Muito recentemente esteve de novo na sua terra natal, aqui participando no II Encontro das Comunidades Macaenses.

Cultor de poesia, ao que não será estranha sua mãe, a poetisa Maria Anna Acciaioli Tamagnini, Mariano Tamagnini é um homem de uma grande jovialidade e um excelente porte físico, daquelas pessoas para quem a idade não conta, tendo sido convidado, e tendo já aceite, vir a ser um dos curadores da Fundação da Casa de Macau.

Mariano com 9 anos enverga a farda "mouro" (marata) no Carnaval de 1928 nos jardins do Palácio de Santa Sancha (fonte: Revista Macau Dez. 1996)

Mariano com 9 anos enverga a farda “mouro” (marata) no Carnaval de 1928 nos jardins do Palácio de Santa Sancha (fonte: Revista Macau Dez. 1996)

UMA MISSÃO QUASE IMPOSSÍVEL

Trecho do artigo de mesmo nome extraído da Revista Macau edição de Dezembro de 1996

autor: Eduardo Tomé

Mariano Tamagnini Barbosa nasceu no palacete de Santa Sancha, em 1919, cumpria seu pai o primeiro de dois mandatos de Governador de Macau. Seis décadas depois, já coronel da força aérea, seria incumbido de uma delicada missão à remota província do Oriente. No estertor da ditadura…

Mariano Tamagnini Barbosa. Foto da Revista Macau Dezembro de 1996

Mariano Tamagnini Barbosa. Foto da Revista Macau Dezembro de 1996

Sou eu que lhe emito o passaporte, tenho o direito de saber para onde vai e o que vai fazer.

— Lamento senhor Director mas trata-se de uma missão ultra-secreta, contacte com o presidente do Conselho de Ministros e pergunte-lhe directamente.

— O responsável pela segurança interna sou eu, o senhor coronel tem de me informar qual o seu destino.

Barbieri Cardoso, número dois da PIDE/DGS, por motivo de doença do responsável desta temível polícia política, o major Silva Pais, ocupava interinamente o cargo de director. No seu gabinete, num segundo andar da Rua António Maria Cardoso, em Lisboa, tinha na sua frente o coronel da Força Aérea, Mariano Alberto Acciaioli Tamagnini Barbosa, que aí fora buscar um passaporte diplomático, de ministro plenipotenciário, válido para todos os países com os quais Portugal mantinha relações diplomáticas.

Perante a insistência de Barbieri, e não podendo revelar quaisquer pormenores acerca da secreta missão de que fora incumbido e que muito bem conhecia, resolveu responder:

— Senhor director, nem eu próprio sei qual é a minha missão, apenas no momento do embarque me será entregue uma carta de “prego “,com as necessárias instruções e o meu destino final, a ser aberta já depois de o avião descolar.

O estratagema resultou em cheio. No entanto, o que Mariano Tamagnini ouviria a seguir deixou-o atônito:

Já que o senhor coronel me parece boa pessoa e pertence à Força Aérea onde o meu irmão é médico, deixe-me dar-lhe um conselho: vá para onde for, não volte tão cedo a Portugal, fique por lá, se regressar encontrará o seu país irreconhecível, dominado pelos comunistas.

E prosseguindo num tom de voz cada vez mais exaltado:

O responsável por essa desgraça é esse f. da p. do Marcelo Caetano, que não permite que metamos na linha esses seus colegas capitãezinhos, que andam para aí a conspirar e a fazer reuniões para derrubarem o regime. Nós estamos a par de tudo, sabemos o que dizem, o que planeiam e onde se reúnem, mas esse canalha do Marcelo é que nos dá ordem para não actuarmos. “É preciso ter paciência e compreensão para com essa juventude”, diz-nos. Nós estamos manietados, não podemos fazer nada, com o doutor Salazar era diferente, ordenava-nos logo “dêem uns abanõezitos nesses garotos e ponham-nos na ordem “.

Note-se que este episódio se passou em 2 de Março de 1974, a menos de dois meses do 25 de Abril, o que atesta bem que a PIDE/DGS estava por dentro do “movimento dos capitães” e Marcelo Caetano devidamente informado.

Alguns dias depois, já em Macau, no Palácio de Santa Sancha, Mariano Tamagnini contaria este episódio ao Governador Nobre de Carvalho, que ficaria estarrecido e visivelmente preocupado.

Mariano Tamagnini (01)

 



publicado por porabrantes às 17:08 | link do post | comentar

Quarta-feira, 01.01.14

A morte de D.Pedro V  em 11-11-1861,ocorreu pouco depois duma visita a de Abrantes, e deu origem a uma série de boatos sobre o envenenamento do Rei, motins populares contra a casta política então no poder e naturalmente a atribuição de responsabilidades a agentes estrangeiros, em especial a José de Salamanca, marquês do mesmo apelido, o boss da linha ferroviária Lisboa-Badajoz, hoje conhecida como Linha do Leste e que este governo encerrou para mal dos nossos pecados.

 

 Internacional Times-1862

 

A extrema popularidade do Rei e a morte sucessiva de vários membros da família real levou a uma enorme consternação nacional e estendeu-se ao estrangeiro e às colónias. Reproduzem-se extractos de curiosas publicações que falam da relação do Rei com Abrantes  e da sua estadia na estação local.

 

As informações nos textos reproduzidos são falsas ou exageradas, encontrando-se a visita de D.Pedro V a Abrantes, e depois a Constância em Outubro de 1861 largamente descrita, em especial nos Anais do Município de Abrantes, de autoria do capitão Mourato, publicado em várias edições pelo Eduardo Campos.

 

Aí se refere que o boato do envenenamento chegou a provocar certa angústia em Abrantes.

 

A falta de rigor das informações publicadas quer em Belém do Pará, quer em Macau, podem certamente atribuir-se à distância geográfica desses territórios em relação a Portugal e à dificuldade de comunicações. 

 

 

Internacional Times-1862-Quebra dos Escudos em Lisboa, em Abrantes só conhecemos a descrição desta cerimónia, feita por Mourato, que foi levada a cabo primeiro na Raimundo Soares (1º escudo), depois o 2º escudo  no Rocio (actual P. da República) e finalmente o 3º na Ferraria.  

 

A colónia portuguesa de Belém do Pará, homenageou o Rei com este volume (mais de 200 páginas)

 

  

 

 

Há uma página abrantina

 

 

 

 

A gazeta oficial de Macau contou a história doutra forma, o Rei teria sido obsequiado com o lunch em Abrantes.....

 

 

 

 

 

mn



publicado por porabrantes às 23:02 | link do post | comentar

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