Segunda-feira, 2 de Março de 2015

 

 

 

O sr. Presidente : - Vou dar a palavra ao sr. Avelar Machado, que a pediu para explicações, antes de se encerrar a sessão.

O sr. Avellar Machado :-Grande foi o meu espanto e admiração, quando, no uso liberrimo de um direito e no cumprimento estricto de um dever, eu fiz uma pergunta ao sr. ministro dos estrangeiros ácerca de um assumpto importantissimo, que póde de una momento para o outro prejudicar gravemente o paiz, e s. exa. responder-me com modos bruscos e arrogantes, que eu não posso, não devo, nem estou disposto a admittir a s. exa.

Constou-me que às redacções dos jornaes d'esta capital chegou a noticia de que houve na Zambezia um grave conflicto entre forcas portuguezas, e alguns subditos inglezes ou forças inglezas e indigenas.

Perguntei ao sr. ministro dos estrangeiros se tinha chegado ao conhecimento de s. exa. ou do governo, official ou extra-officialmente, alguma noticia a este respeito, e s. exa. respondeu-me, que officialmente não tinha nenhuma noticia do facto; e perguntando ainda a s. exa., se extra-officialmente alguma cousa constara, s. exa. respondeu-me: "que não era obrigado a responder, ainda que extra-officialmente alguma cousa lhe constasse". S. exa. disse que não era obrigado a responder-me, e disse-o com um modo tão altaneiro, a que eu não estou habituado, nem podia esperar de s. exa.

O meu direito e o meu dever, como deputado, é levantar aqui todas as questões que possam interessar ao paiz, chamando para ellas a attenção do governo; a obrigação do governo é responder da maneira mais cordata, mais pensada, mais correcta e satisfactoria às perguntas do deputado.

Eu fiz a s. exa. uma pergunta com a minha habitual delicadeza, e apenas levado pelo interesse de que as notícias propaladas e que tanto estavam sobresaltando a opinião publica, fossem attenuadas ou explicadas pelas declarações do governo.

Nada d'isto aconteceu, e s. exa., não só nada disse que podesse esclarecer a questão, mas ainda aggravou o caso com as suas pseudo-diplomaticas reservas. Se não queria dizer nada ao parlamento, apresentasse s. exa. franca e claramente a questão de confiança, que eu seria o primeiro a respeitar as reservas de s. exa. Mas o que não posso acceitar são os modos altaneiros, quasi aggressivos, com que s. exa. me respondeu, e que, como declarei já, não estou disposto a admittir.

Termino, declarando que levantei este protesto para que não se diga, que eu deixei passar sem reparo a maneira brusca, com que s. exa. respondeu a um deputado da nação, maneiras que eu não devia esperar de s. exa., porque nunca tive para com s. exa. senão attenções, delicadezas, palavras de louvor e de amisade.

O sr. Ministro dos Negocios Estrangeiros (Costa Lobo): - Sr. presidente, eu esperava muita cousa, quando acceitei a honra de ser ministro; mas nunca esperei que alguem se mostrasse offendido com os meus modos.

Eu tenho uma larga experiencia do parlamento e sei que alguém se póde julgar offendido por palavras; mas por modos, não comprehendo.

Eu disse alguma palavra offensiva para o illustre deputado? Não! Fallei com uma certa intimativa, porque eu sou naturalmente sanguineo, é o meu temperamento; mas se a intimativa com que fallei se póde considerar offensiva, parece-me que vou pedir a minha demissão.

Se o illustre deputado citasse uma uma unica palavra que tivesse sido offensiva, eu retirava-a immediatamente, porque nunca recebi de s. exa. senão attenções, e as nossas relações têem sempre sido amigaveis; mas o meu modo !... Em que está o meu modo?

Quererá o illustre deputado dizer que eu fiz algum gesto anti-parlamentar ? (Riso.) Não tenho idéa de o ter feito !

Parece-me que o illustre deputado devia até agradecer a minha intimativa, porque ella demonstrava que eu tinha tomado seriamente as suas palavras e por isso lhe tinha respondido com calor.

Eu contestei o direito do illustre deputado em interrogar-me? Não lhe respondi?

As palavras do illustre deputado têem certamente mais valor do que as minhas; mas, officialmente, as minhas têem um valor que não têem as do illustre deputado; e por isso eu, que não desejo faltar á verdade, não profiro palavras senão perfeitamente ponderaveis, e officialmente, porque é a unica informação a que posso dar credito, o governo não tem conhecimento dos tumultos da Zambezia.

Mas o illustre deputado quer que eu extra-officialmente lhe diga alguma cousa! Não sou obrigado a dizel-o; não devo dizel-o. Eu tambem tenho conhecimento d'esse boato; mas não posso dal-o como informação official. Isso era uma inconveniencia perigosa. (Apoiados.)

Eu não tinha rasão para ser offensivo para com o illustre deputado; s. exa. não me offendeu, fez-me uma pergunta no uso pleno do seu direito, a que eu tambem respondi no cumprimento do meu dever.

Que rasão tinha eu para offender o illustre deputado? Só se estivesse doido?! (Riso).

Peço ao illustre deputado, que não julgue offensivo o modo como fallo; já estou muito velho para apresentar outro modo. S. exa. póde pedir-me a responsabilidade das minhas palavras, mas não proferi uma unica palavra, que por sombras fosse offensiva do illustre deputado e por consequecia da dignidade da camara; isso não proferi, e espero em Deus, que não hei de proferir.

Vozes:-Muito bem.

(S. exa. não reviu.)

O sr. Avellar Machado:-Agradeço ao illustre ministro as explicações, que me acaba de dar e que estão em harmonia com a opinião que eu formo de s. exa. e com a amisade que ha muito lhe dedico.

Desde o momento, em que s. exa. confessa que é o seu modo habitual, fallar com tanta intimativa, levantando a voz e gesticulando largamente á menor pergunta ou á menor observação, que se lhe faça, por ser esse o seu feitio, eu de aqui por diante não me melindrarei com os seus gestos, logo que não excedam uma certa medida, ou com a sua voz altisonante, e attenderei sómente às suas palavras

 

avelar.jpg

grafia da época não revista pelo Parlamento

 

MN



publicado por porabrantes às 16:22 | link do post | comentar

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