por
antónio valdemar
Jornalista
Redactor do DN<input ... >21 outubro 2004
O homem português, apesar da sua índole melancólica e lírica, tem desde sempre manifestado propensão para a sátira. Como atitude de mordacidade, desmontagem dos ridículos, arma de intervenção política em face de impostores, enfatuados, parlapatões, grandes e pequenos déspotas.
José Vilhena integra-se na tradição das Cantigas de Escárnio e Maldizer, nos autos e farsas de Gil Vicente, ao vergastar desmandos e prosápias de fidalgos, tropelias e libertinagens de frades e de padres. Sá de Miranda, ao zurzir as intrigas da corte e a sede do ouro do Portugal dos Descobrimentos, optou pelo discurso da contestação austera, outra componente que percorre, simultaneamente, a cultura portuguesa e se reflectiu nas prosas doutrinais de Herculano, Antero, António Sérgio e Raul Proença.
A censura do Santo Ofício não conseguiu sufocar o ímpeto bravio de ambas as formas de expressão. Recorde-se Os Ratos da Inquisição, escrito por Serrão de Castro nos próprios cárceres daquele tribunal. Aconteceu o mesmo no salazarismo e marcelismo, apesar da censura, da PIDE, dos Tribunais Plenários. Escaparam alguns textos malditos de Luís Pacheco e Mário Cesariny; a rebeldia poética de Alexandre O'Neill, António Aleixo, Ary dos Santos e, entre todos, as explosões de riso e sarcasmo de José Vilhena.
Políticos, intelectuais e artistas, em todas as épocas, denunciaram a repressão. A virulência atingiu o rubro nas lutas liberais, no fim da monarquia e na I República. Nos panfletos e imprensa clandestina contra o fascismo. Depararam-se, entretanto, várias posições: a sátira com objectivo moralizador e protesto cívico, a anotação irónica, maliciosa e sorridente e a invectiva com insultos e ataques pessoais, em linguagem solta, desbragada e, quantas vezes, obscena. É o caso de José Agostinho de Macedo, de Camilo, de Homem Cristo.
O Prémio Bocage instituído no âmbito do primeiro aniversário do Inimigo Público, único semanário satírico que se edita em Portugal, distingiu recentemente José Vilhena. Há meio século continua a insurgir-se na literatura, na caricatura, no cartune e ilustração, perante os desconcertos do quotidiano. Antes do 25 de Abril, procurou destruir o regime, as estruturas ideológicas e políticas do salazarismo e do marcelismo. Quem viveu esses anos, dificilmente esquecerá, por exemplo, a História Universal da Pulhice Humana, Branca de Neve e os 700 Anões, Tenha Maneiras e O Filho da Mãe. Pagou caro. Custou-lhe o vexame dos interrogatórios da PIDE, prisões em Caxias, sucessivos livros apreendidos pela censura.
Depois do 25 de Abril, José Vilhena tem atacado o sistema: o arbítrio dos poderosos, a corrupção, a hipocrisia religiosa, a depravação sexual, a rotina confortável dos comportamentos dúbios e negócios escuros. Basta ver e ler A Gaiola Aberta, o Fala Barato, O Moralista.
No seu estilo muito próprio, dir- -se-ia que Vilhena adoptou a directriz de Rafael Bordalo na apresentação do António Maria: «Ser oposição declarada e franca aos Governos e oposição sistemática às oposições.»
Por não encolher as unhas e dentes afiados em face de todas as mordaças, fui e continuarei a ser (quando necessário) testemunha de José Vilhena em tribunal. Ao receber o Prémio Bocage, as minhas homenagens à sua homenagem.
com a nossa vénia
o jornalista e escritor António Valdemar é maçon, do GOL, não estavam à espera de ver um tipo do Opus Dei, mesmo que sobrinho do Ary dos Santos, a elogiar aqui Vilhena....
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