Quinta-feira, 13 de Agosto de 2015

 

jorge jardim.jpg

Jorge Jardim (macua blogues)

 

''  (...)

A fuga perfeita


Ao longo destas semanas eu tinha estudado meticulosamente, e cronometrado mesmo, os movimentos dos sitiadores. Gastei nisso muitas noites de vigília.

Quem se tinha escapado de Bakwanga (no Congo) e enfrentado a perseguição da polícia indiana (em Bombaim e em Goa) não podia conformar-se em ceder perante um bando inexperiente.

Depois de estabelecer contacto com amigos de confiança (a quem um dia espero poder nomear para lhes prestar a homenagem que merecem) escolhi o ponto de passagem da fronteira. Seleccionei a região de Castelo de Vide por ser a mais fácil de transpor (com as suas serranias e pinhais) e, portanto, a menos propícia à eventual perseguição por gente não afeita à luta no mato. Mesmo no caso de me descobrirem, todas as vantagens, no confronto, seriam a meu favor.

Obtivemos cartas detalhadas do terreno, fizeram-se fotografias paronâmicas da fronteira, prepararam-se viaturas e recebi os meios de orientação indispensáveis. O percurso por estrada foi estudado e reconhecido, com confirmação efectuada menos de 24 horas antes do dia "D".

Como as luzes, fortíssimas, da rua da embaixada eram cortadas exactamente às 5.30 e como a guarda era rendida às 6.30, decidi que a hora precisa da fuga seria às 5.32. Beneficiaria da penumbra matutina, que mal consentia divisar os contornos a duas dezenas de metros, e da fadiga dos vigilantes que, para mais, deviam estar saturados por sucessivas guardas inúteis.

Escolhi a noite de 12 para 13 de Junho (noite de Santo António) que antecedia a celebração do Corpo de Deus, tão respeitada pela província fora.

 

 

Montei, então, a farsa mais completa, convencendo mesmo os mais íntimos familiares (como meu irmão e minha filha) de que estava conformado e não tentaria escapar-me. Sob vários pretextos afastei toda a gente da embaixada. O William foi passar uns dias a Braga, com uns amigos. Fiz telefonemas (que sabiam serem escutados) marcando encontros para a semana imediata e até nisso envolvi a minha crédula irmã que se encontrava em Viana do Castelo.

Tive duas preocupações: ninguém poder ser acusado de cúmplice e ninguém conhecer os meus planos de fuga.

O esquema foi executado com precisão matemática e cruzei a porta da embaaixada (com inteira exactidão, às 5.32) apertando na mão uma granada ofensiva a que tinha retirado a cavilha de segurança. Felizmente que a tornei a colocar no engenho. Estava, porém, disposto aos últimos extremos. Sob as roupas levava o armamento de que dispunha e tinha no cinto duas granadas defensivas, mortais num raio de 50 metros.

A conjugação dos movimentos das viaturas foi impecável ao longo do percurso e a nossa tranquilidade era tal que, ao passarmos por Abrantes, não resistimos a tomar um café no estabelecimento que encontrámos abertos. Depois, e por insistência minha, alterámos o percurso previsto e passámos por Portalegre (terra onde me criei e onde muitos julgam haver eu nascido) que não queria deixar de voltar a ver. Encaminhei o itinerário por caminhos que recordava dos descuidados tempos da juventude e fui "largado", ficando entregue a mim próprio, numa estrada que corre paralela às serranias da fronteira.

Por erro de avaliação (o único cometido) os meus amigos lançaram-me a uns três quilómetros do ponto previsto. A partir daí, e por mais fiel que me mantivesse aos azimutes dados, tinha de me enganar no destino. Já havia sofrido erros parecidos nos lançamentos de pára-quedas mas, desta feita e nestas condições, as consequências foram muito duras.

Quase ia tropeçando numa brigada florestal que, apoiada por guardas fiscais, trabalhava na abertura de uma estrada de serviço. Evitei-os por escassas dezenas de metros. Não deram por mim, mas vivi momentos angustiosos. Não tinha dúvidas de que forçaria a passagem sem dificuldade de maior, mas custava-me causar vítimas inocentes. Nem sequer era igual a luta entre esses funcionários fronteiriços e um homem curtido no mato africano. Tivemos muita sorte em não terem dado por mim.

A escalada da serra foi penosa, até atingir a linha da fronteira, e só me aguentei abusando da “coramina” e animado pela vontade de voltar a África.

Atingida a outra vertente da montanha, já em território espanhol, penso que devo ter corrido como um louco. Só parei num riacho junto ao qual inutilizei o material de defesa que levava comigo, enterrando-o cuidadosamente. Não queria ser encontrado com armas e pretendia evitar algum acidente se alguém as descobrisse.

Deambulei quase dez horas, por montes e vales, para encontrar o ponto fixado para o encontro com o carro que me aguardava. Se não tivesse sido o apoio hospitaleiro de boa gente local nunca mais teria lá chegado.

 

 

Nessa noite alcancei Madrid e descansei profundamente numa “suite” do “Hotel Ritz” (tinha o número 530) depois de ter telefonado para Lisboa, a dar conta aos meus, do êxito da fuga. Nem queriam acreditar. Pouco depois, na Beira e em Blantyre, estavam informados da minha nova situação.

Os que me vigiavam, em Lisboa, mantinham a guarda à embaixada. Só se deram conta do meu desaparecimento pelos jornais.

Estava concluída a “operação perfeita”. '' (....) in Moçambique, Terra Queimada'', devida vénia a http://liceu-aristotelico.blogspot.com.es/2010/09/mocambique-terra-queimada-viii.html

 

 

E tomou a bica no Pelicano, aquele que era o inimigo-público nº 1.....enquanto os fogosos revolucionários abrantinos, como o Manuel Dias, estavam a discutir o sexo dos anjos e os tachos a distribuir!!!!

 

ma 

 
 


publicado por porabrantes às 23:23 | link do post

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