POR UMA POLÍTICA DE RIGOR E TRANSPARÊNCIA
O movimento ALTERNATIVAcom apresentou-se aos abrantinos em novembro de 2019 com dois desígnios para o nosso concelho: a democracia e o desenvolvimento. Quem conhece a realidade de Abrantes – tal como ela é e não como se procura fazer crer – e, tal como nós, a encara com seriedade e rigor, sabe bem que estes vetores da ação política são tudo menos redundantes ou triviais. Precisamos, de facto, de mais e melhor democracia e desenvolvimento.
Temos dito, de forma repetida e fundamentada, que Abrantes não está bem. Revelamos números, pedimos esclarecimentos e exigimos que se faça pela nossa terra o que há muito não se faz. A maioria socialista, que já leva quatro décadas no poder, finge ignorar as questões que levantamos, mas vai aproveitando as oportunidades e os números parciais que lhe convêm para tentar contradizer as evidências que todos observam e sentem no dia-a-dia. Todavia, a propaganda e a manipulação não resistem ao choque com a realidade.
Na última sessão da Assembleia Municipal e em declarações posteriores a uma rádio regional, o presidente da Câmara Municipal de Abrantes afirmou com pompa e circunstância que “por incrível que pareça e ao contrário do que alguns possam querer dizer, mas contra factos e contra documentos técnicos de responsabilidade públicos, 2020 foi o ano em que se registou o maior número de constituição de novas empresas em Abrantes: 100, o maior número desde 2011, uma taxa de crescimento de 22,4% face ao ano anterior”.
Apesar de ter errado em ambas as comparações (nem o ano é 2011, nem a percentagem é 22,4%), este número de 100 novas empresas é, não só correto, como “incrível”, como bem reconheceu o autarca. Na realidade, entre 2010 e 2019 a média anual (relativamente estável) de criação de empresas foi de 63,2 e a de dissolução de 50,7, o que dá uma média mensal de 5,3 e 4,2, respetivamente. Se nos cingirmos apenas a 2020, a média mensal de constituição de novas empresas foi de 8,3 e a de dissolução de 2,1. Contudo, em janeiro de 2021 foram criadas em Abrantes apenas 3 empresas e dissolvidas 14! Porque não foram, então, revelados estes números?
Note-se que, entre 2011 e 2018 (últimos dados disponíveis), o peso das sociedades no total das empresas não financeiras diminuiu em Abrantes de 31,7% para 29,5% (tendo o das empresas individuais crescido, portanto, de 68,3% para 70,5%), o que obviamente se traduz num tecido empresarial mais débil. E, apesar de o volume de negócios dos estabelecimentos ter vindo a recuperar no período pós-troika, ainda estava em 2018 (dados mais recentes) próximo do de 2011, diferentemente do conjunto dos municípios do Médio Tejo que cresceu 6,7% (levando a que o volume de negócios em Abrantes, com relação ao do Médio Tejo, baixasse de 16,9% para 16%).
É preciso, pois, querer e saber analisar melhor os números para os usar com credibilidade. Ninguém mais do que o movimento ALTERNATIVAcom deseja que Abrantes esteja bem e sempre a melhorar. Foi para isso que aparecemos. Mas não temos medo dos números que teimam em demonstrar que estamos mal e sem horizontes, nem admitimos que se embrulhe as mentiras em meias-verdades, pois consideramos que o reconhecimento da realidade é condição indispensável para a sua melhoria, enquanto a sua negação conduz inevitavelmente ao desastre.
Assim, o que explica o facto de terem sido constituídas 100 e dissolvidas 25 empresas com sede em Abrantes, num ano tão atípico como foi 2020? Quantas destas empresas têm atividade em Abrantes? São empresas individuais ou sociedades? E quantos estabelecimentos de empresas sediadas noutros concelhos foram abertos e fechados no nosso concelho? Qual o volume de negócios e emprego perdido com os estabelecimentos fechados e ganho com os abertos, sabendo-se que a escala destes é naturalmente mais pequena do que a daqueles? Quem possui informação privilegiada e os técnicos para a analisar, deveria querer e saber responder com rigor, mas não o faz. Porquê?
Como se percebe, 100 novas empresas não é, em si mesmo, nem muito nem pouco, a não ser que sejam tidos em conta outros indicadores, como por exemplo o facto de o número médio de pessoas ao serviço dos estabelecimentos ter diminuído de 3 para 2,77, entre 2011 e 2018. E repare-se nestes números do IEFP: Nos últimos dois anos (janeiro de 2019 a dezembro de 2020), o número de desempregados registados no Centro de Emprego de Abrantes aumentou de 1.416 para 1.498 e o peso destes números no conjunto dos treze municípios do Médio Tejo subiu de 24,9% para 25,9%, sendo Abrantes responsável por mais de ¼ do desemprego na região.
E não é tudo. Os mesmos dados revelam que em 2020 foram inscritos 3.167 novos desempregados, tendo sido colocados pelos serviços apenas 563 (17,8%), o que dá um saldo negativo de 2.604, não refletido no número de desempregados registados. Desistiram de procurar emprego? Encontraram por si próprios? Foram trabalhar para fora do concelho? Foram recrutados para estágios profissionais ou ações de formação? Houve limpeza de registos? Não sabemos, o certo é que não foram colocados pelo Centro de Emprego de Abrantes por falta de ofertas de emprego compatíveis, tendo o mês de dezembro de 2020 sido um dos piores do ano.
Naturalmente que esta realidade é reflexo da quebra no emprego e só não é pior pelo facto de a população estar a diminuir e a envelhecer. Os últimos dados mostram que Abrantes perdeu 1.657 postos de trabalho (pessoal ao serviço dos estabelecimentos) de 2011 a 2015, tendo recuperado cerca de metade até 2018. No conjunto dos municípios do Médio Tejo, Abrantes passou de uma quota de emprego de 14,2% para 13,2%, sempre a cair. E os cidadãos questionam-se: o que acontecerá se grandes empregadores como a FRASAM (com cerca de 80 trabalhadores) ou a Central Termoelétrica do Pego (com cerca de 300 permanentes e 500 ocasionais) encerrarem?
É certo que Abrantes, à semelhança do conjunto dos municípios do Médio Tejo, tem vindo a aumentar o rendimento bruto e o poder de compra por habitante, quando comparado com a média nacional. O mesmo se passa, por exemplo, no domínio da Educação com o sucesso escolar. Contudo, tal como dissemos no último comunicado, o desempenho do nosso concelho é geralmente inferior ao da região – mesmo quando melhoramos em termos absolutos, pioramos em termos comparativos – o que revela duas coisas: falta de visão, ambição ou capacidade de realização, por um lado, e perda de oportunidades, posição e relevância regional e nacional, por outro.
Perante esta realidade esmagadora, deviam os autarcas em exercício estar mais preocupados com o desenvolvimento – e até sobrevivência – do território e das populações, do que com o “incómodo” causado por quem escrutina democraticamente o seu desempenho. Quando falamos, sabemos do que estamos a falar e olhamos para os factos com o necessário relacionamento e enquadramento técnico, tirando as ilações políticas que se impõem sem recorrer à reprovável manipulação e demagogia. Porque, no novo ciclo autárquico que se avizinha, não pode mais haver lugar à política vazia, sem verdade e sem competência.