Sexta-feira, 10.05.13

Crónica anunciada de uma descida aos infernos…

Após a operação, como tenho vindo a contar por aqui, a minha tia foi colocada numa residência para séniores onde recebe cuidados continuados com vista à recuperação. Mas a continuada tensão arterial demasiado baixa tem impedido que faça a fisioterapia devida.
Daí que tenha sido enviada, pelo médico da residência, para uma consulta de urgência, ontem,...procurando encontrar as causas desta quebra de tensão que lhe provoca vómitos e desmaios, sempre que se tenta coloca-la sentada na cadeira ou levantá-la para dar alguns passos com andarilho e ajuda das terapeutas.

Actualmente não há como recorrer ao SNS fora da área de residência. Sabendo das complicações aqui pelo Médio Tejo, tentei levá-la a Coimbra, aos HUC, onde tenho bons amigos. Em vão. Tem que ser na área de residência… assim, lá foi para Abrantes logo pela manhã.
Após contacto da residência a avisar-me da decisão, arranquei também para o hospital. A minha tia tinha entrado antes das 10 da manhã e continuava numa sala apertadíssima, numa maca (azar o dela, não havia outra quando chegou) de tamanho reduzido que a impedia de fazer qualquer movimento. Assim esteve até por volta das 14 horas, hora em que perguntei se não era possível dar-lhe alguma coisa de comer, uma vez que ali se encontrava há horas, sem comer nada. Pois, não. Sem ser vista pelo médico, não! 
Até há bem pouco tempo, os acompanhantes dos doentes ficavam nas salas de espera. Agora ficam ao seu lado a substituir o pessoal que não existe!
Por isso, quando dei por mim, andava a empurrar macas e cadeiras de rodas, sobretudo de velhotes que ali iam sendo largados pelos bombeiros e que não conseguiam deslocar-se quando eram chamados…
E a tia ia esperando…
Nas pequenas salas, atropelavam-se doentes e acompanhantes numa confusão inaudita! Aquela a que chamam a zona intermédia no hospital de Abrantes, encheu-se sem dar lugar à passagem de nada nem de ninguém… éramos nós, os acompanhantes, que tínhamos que desviar os nossos doentes, para que outros pudessem passar com os seus…
Um exemplo do disparate mais profundo: ao lado da minha tia, um homem, numa maca, gritava de dores. Era de Espite, freguesia do concelho de Ourém que faz fronteira com Leiria. Tinha tido um acidente a 20 kms do hospital de Leiria. Fémur partido, os bombeiros, naturalmente, levaram-no de imediato para Leiria… De lá foi enviado para Abrantes, a 90 Kms e gritava com dores, a pedir por amor de Deus que lhe dessem algo que lhas acalmasse… mas a auxiliar apenas conseguia gritar também a empurrar mais uma cadeira ou uma maca ou a acorrer a alguém que vomitava no corredor, que era só uma. E o incrível é que era mesmo. Uma auxiliar médica e um enfermeiro. Apenas… na tal da zona intermédia. As coisas tinham-se complicado na véspera – fiquei a saber . Depois de terem encerrado a Medicina Interna no Hospital de Tomar, as equipas médicas deste foram juntar-se às de Torres Novas para onde eram encaminhados doentes… na segunda-feira este serviço encerrou em Torres Novas. Os doentes (que costumavam ser distribuídos pelos 3 hospitais) foram todos encaminhados para Abrantes. Mas as equipas médicas ainda não. Assim, apenas a equipa de Abrantes tinha que dar conta do recado e receber toda a gente, desde Espite a Vila de Rei, De Ferreira do Zêzere… dos 15 concelhos que serve com 300 mil habitantes.
Instalou-se o caos… perdiam-se doentes pelos corredores… até sangue para análises obrigando a novas recolhas… os médicos (dois na consulta externa e 3 internistas) tantavam sorrir… mas sentia-se o desespero de quem quer fazer e não pode. 
Quando chegou a vez da minha tia ser chamada, outra aventura… para chegar ao exíguo gabinete médico, era preciso passar por uma porta e um corredor ainda mais exíguos onde a maca não passava. Assim, entrei eu para ser consultada na vez dela!!!
O médico teria que vir depois à sala onde ela estava para a ver e quando foi necessário recorrer ao sistema informático, este deixou de funcionar… 
A minha tia lá acabou sendo levada para fazer os exames médicos requeridos já ia alta a tarde. Ainda sem comer nada!
Depois, houve que regressar e esperar de novo, agora para ser vista pela medicina interna… 
Passava das 22h quando isso aconteceu… houve que receber soro e só no final, se aperceberam (e eu também) que a desgraçada tinha estado todo o dia com a mesma fralda… nem vou contar o seu estado… tive que ajudar a enfermeira a mudá-la, porque, uma vez mais, não havia quem o fizesse!
Seguiu-se outro drama: conseguir transporte. Não recendo pagamento por isso, os bombeiros, após a meia-noite não fazem serviço de transportes de doentes. Tem que haver requisição hospitalar. Mas os médicos não estão autorizados a fazer essas requisições… mas também não podem manter ali os doentes após a alta. Cabe à família desenrascar-se… descobri que na região, os únicos bombeiros a fazer transporte à noite eram os de Constância. Paga-se bem pago e quem não tem dinheiro que vá a pé, mesmo que tenha as pernas partidas… Após mais alguma espera, lá chegaram os bombeiros… a minha tia chegou ao lar às 3 da manhã e eu cheguei a casa às 4… Entre taxas moderadoras e transporte, o dia custou cerca de 150 euros e muita fome!
A destacar, porém, o trabalho incrível dos muito poucos trabalhadores daquela casa. Médicos, enfermeiros e auxiliares (passamos por diversas mudanças de turno), multiplicavam-se de uma forma que só quem está de alma e coração ao serviço do seu semelhante. 
A percepção final é que, tal como os doentes, todos eles são vítimas de um sistema infra-humano que nunca imaginei poder ser possível…
Mas o corte vai continuar… como ouvi ontem, acho que vamos ouvir muitos velhos a chorar e a gritar “deixem-me morrer” por não aguentarem as dores e a forma como são tratados. Não pelos profissionais, mas por um sistema que não se compadece de nada nem de ninguém…



enviado pela

 com o título : 

Um testemunho da "qualidade" apregoada pelo CA do CHMT e pelo Min Saúde‏

 

sublinhados nossos

 

e ainda 4 comentários:

 

a) Que se passa com o Hospital de Abrantes?

 

b) Isto é forma de tratar as pessoas?

 

c) Realçamos a abnegação e dedicação dos funcionários do nosso Hospital

 

d) Verificamos que os Bombeiros de Constância, chefiados por um senhor que está empenhado em terminar com os Bombeiros abrantinos, fizeram bom negócio. Justamente aquilo que condenamos, os bombeiros não têm de ser um negócio

 

mas

 

 

SERVIÇO PÚBLICO!!!!!


Por isso e por justiça defendemos os bombeiros de Abrantes



ESTÁ A DECORRER DESDE 23 DE ABRIL UMA RECOLHA DE ASSINATURAS A FAVOR DOS 

BOMBEIROS DE ABRANTES


FAÇAM FAVOR DE ASSINAR

 

a redacção

 

para isso contactar os delegados locais da Associação Nacional dos Bombeiros Profissionais ou do Sindicato Nacional dos Bombeiros Profissionais



publicado por porabrantes às 16:38 | link do post | comentar

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