Sexta-feira, 05.03.21
 
O dia 22 de Fevereiro é um dia muito importante para a Igreja Católica.
 
Neste dia  celebra-se a festa solene da Cadeira de São Pedro.
É de tal modo importante esta festa que se "interrompe"  a Quaresma para cantar Aleluias e o próprio Glória.
 
Parece que a festa já era celebrada em Roma no século IV. Para significar a unidade da Igreja, fundada sobre o Príncipe dos Apóstolos.
Como saberão a sede do Bispo de Roma é a Arquibasílica de São João de Latrão e não a Basílica de São Pedro.
A Igreja Matriz de Constância foi unida à  igreja do Papa (São João de Latrão) mesmo antes da paróquia para aqui ter sido transferida em 1822 na sequência da ruína e do incêndio de má memória provocado pelos "malditos franceses". Os registos da Confraria dos Mártires, da então Comarca de Tomar, esconderão vasta informação sobre os acontecimentos da época....
Não será por acaso que o altar de São Pedro na actual matriz possui no seu tecto as insígnias dessa Cátedra? É muito provável.
Havia na vila uma lenda não sem fundamento que rezava mais ou menos assim: que a igreja de Constância esteve para ser a Cabeça Primaz. Creio que tal anedota se deverá (?) às Bulas papais? Certo é que em 1830 já se dizia algo parecido sobre a Igreja de Santa Maria do Zêzere,  fundada no local onde se encontra o cemitério da Praia. Disso sabemos pela pena do Padre Veríssimo o qual - e bem- graceja com a anedota. Mas nestas coisas há sempre algum fundamento, seja ele qual for.

 
Em Constância havia a Irmandade de São Pedro Advincula já no século XVII. Que teve sede na Ermida de Santana. O cronista Joaquim Coimbra que muito me ensinou, encontrou esses registos quando em novo estudou os arquivos da matriz mais o então seminarista José Maria Rodrigues d'Oliveira, o nosso saudoso Cônego capitular.
A antiga capela de São Pedro estava unida à paroquial segundo consta do arquivo da nossa matriz e do sumário  da documentação paroquial dos registos da torre do tombo.
Para aqui trasladaram o Santíssimo, por exemplo, aquando duma cheia, salvo erros l, em 1712.
Só resta a torre actualmente desta antiga capela que deu o nome à rua.. E temos a imagem antiga de São Pedro Ad Vincula, na sacristia da matriz. As colunas de pedra da antiga capela, compradas pelo Tenente Soares, antigo presidente da câmara que veio aqui pela primeira vez em prospecções de barco, no início do século XX ( falámos sobre o assunto), infelizmente,  já não existem. Só temos uma foto de uma. Estiveram a segurar uma videira enquanto puderam e as deixaram....
Na capela do Santíssimo existe um pormenor de São Pedro pintado por Pedro Alexandrino, na Última Ceia. 

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 São Pedro. Pormenor da tela de Pedro Alexandrino, da Última Ceia (capela do Santíssimo).
 

 

 

 
.A rua de São Pedro é um excelente exemplo toponímico que retrata bem a cultura religiosa da vila de Constância, as suas raízes. Alguns no poder mudaram o nome da rua para "Machado Santos". Este homem pertenceu à carbonária a qual era anticlerical e tinha um núcleo na vila que tentou dinamitar a ponte sobre o Tejo em Constância. Chegaram a levar uma carroça para o Entroncamento  com esse fim. O intento era matar as tropas realistas que se soube iriam fazer a passagem do Tejo
 
 Mudar o nome da "Rua de São Pedro" para o nome de um elemento de uma organização terrorista  só podia ser obra de republicanos fanáticos como aqueles que andaram então aos tiros à torre da matriz, fazendo apostas. Deste triste episódio nos deu conta um antigo cultor das nossas memórias locais, no caso Ruy Dias Ferreira, no jornal Abarca, nos anos 90 o jornal que tive a honra de fundar com o saudoso camarada Silvino Nunes.
A Cadeira de São Pedro , símbolo da autoridade papal,  está assim bem presente na vila de Constância, na sua matriz, desde pelo menos o século XVII , a fazer fé nas Bulas papais que estão aí para o comprovar. A fama dos Milagres - A Senhora dos Milagres, A Senhora dos Mártires-  era tal que aqui trouxe reis e rainhas ( sobre o assunto já o escrevi) e, é claro, levou à emissão de indulgências papais. O rei Dom Sebastião que por cá teve a corte várias vezes no palácio (antigo castelo templário onde uma das tradições coloca Camões como prisioneiro), erigiu a  própria Confraria  em 1566 como se vê pela cópia do século XIX dos seus estatutos.
Permitam-me algum enquadramento sobre o significado para um católico desta questão da Cadeira de Pedro

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Foto do altar de São Pedro, na matriz de Constância, com as insígnias do Vaticano, símbolo da Autoridade papal, da Cadeira de São Pedro.
 
 
A autoridade de Pedro?
"Tu és Pedro, e sobre esta Pedra edificarei a minha Igreja, e as portas do Abismo nada poderão contra ela. Dar-te-ei as chaves do Reino do Céu; tudo o que ligares na terra ficará ligado no Céu e tudo o que desligares na terra será desligado no Céu.» - São Mateus.
Os apóstolos escolhem sucessores com a mesma autoridade de ligar e desligar (Actos dos Apóstolos, 1, 15-26); A transmissão da autoridade apostólica (cf. 2 Tm 1,6; Tt 1,5).
A ordenação de presbíteros (2 Timóteo, 1-7).
 
A autoridade da Igreja Católica apostólica vem de Jesus, O Filho de Deus:
“… Toda autoridade me foi dada no céu e na terra. Ide, pois, e ensinai a todas as nações; baptizai-as em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Ensinai-as a observar tudo o que vos prescrevi. Eis que estou convosco todos os dias, até o fim do mundo.”(Mt 28:18-19).
 
O depósito da fé,  através do Espírito Santo: 2 Timóteo, 1, 14.
 
O Governo da Igreja:: "Quem vos ouve, a mim ouve; e quem vos rejeita, a mim rejeita; e, quem me rejeita, rejeita aquele que me enviou" (Lc 10, 16).
 
José Luz (Constância)
 
PS- não uso o dito AOLP
 
 
 
 
 


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Domingo, 28.02.21

 

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Quem ainda se recorda dos tradicionais candeeiros à moda antiga da Vila de Constância,  substituídos  nos primeiros mandatos da gestão de António Mendes?  Na altura os modelos colocados procuravam imitar os antigos, e ainda aí estão, compondo a paisagem do burgo e  emprestando-lhe uma tonalidade amarelada, romântica. Tal coloração sempre é mais acolhedora e contrasta com as  novas lâmpadas brancas,  directas, vindo de baixo ou de cima, potencialmente agressivas para a vista de quem tem olhos claros. Hoje em dia, parece, recomendam-se lâmpadas LED para projectos de iluminação pública de espaços ajardinados, por razões de economia, duração, e de não aquecimento das plantas e mesmo de segurança. São contextos distintos. Mas o objecto deste artigo é sensivelmente divergente dessa polémica. Aqui, visa-.se apenas um olhar e um registo da paisagem em que sobrevivem elementos do passado ou os seus protótipos modernos. É um olhar de leigo, informal, que procura perceber até onde vai a defesa e a preservação da paisagem urbana, no que tange aos seus elementos característicos. Procura-se ao mesmo tempo lançar uma sinopse sobre a instalação eléctrica em Constância.

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Quem se passeia pelas ruas típicas de Constância pode ainda encontrar – ainda pode -  esses nostálgicos candeeiros, presos nas fachadas e nas esquinas dos edifícios. Há candeeiros de rua  antigos que são considerados verdadeiras peças de arte urbana. Falamos pois de, património.

Mário Mendes Lopes, antigo presidente da edilidade, um apaixonado pelo cinema e cultor desta arte, deixou-nos algumas imagens notáveis da vila de Constância num filme editado em 1938 mas que conterá filmagens desde 1924 a julgar pela descrição recente que a CMC divulgou. Nesta película, legada a Manuela de Azevedo e depois cedida à Associação da Casa Memória de Camões em Constância, surge no final uma imagem da vila nocturna, bucólica, única, com os candeeiros acesos. A serem imagens de 1924, então, os candeeiros ainda eram a petróleo.  Em atalho de foice posso asseverar que a escritora e jornalista Manuela de Azevedo, fundadora  da  então independente Associação da Casa Memória, de Camões (com outra designação) me disse que foi ela que  no tempo ainda do Estado Novo pediu a colaboração do Ministério da Guerra para se recuperar a película original do filme. Assim, esta versão que a CMC recuperou agora. por minha sugestão, é  uma terceira  edição.

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Como curiosidade encontrámos no Arquivo Municipal de Constância duas informações: uma, sobre o registo dos contratos celebrados entre a Câmara Municipal e entidades várias, durante o período compreendido entre 22-11-1891 e 13-12-1893, nomeadamente, um auto de fornecimento de 25 candeeiros para iluminação pública, outra, dando-nos notícia de um  auto de arrematação do fornecimento do petróleo para a iluminação pública da vila durante o futuro ano de 1913.

O Concelho de Constância aparece-nos apenas em 1933, a saber, no quadro dos concelhos com rede eléctrica inaugurada (em Abrantes a inauguração ocorreu em 1909) segunda uma tese de doutoramento de João Figueira sobre o Estado na Electrificação Portuguesa (1945-76), publicada há nove anos atrás. Recuando  no tempo alguns anos, sabemos por este mesmo estudo que em 1928 a Hidroeléctrica do Alto-Alentejo (sociedade anónima de responsabilidade limitada) passou a apostar na hidroelectricidade de uma região mais desfavorecida que incluía o concelho de Constância e outros do nosso distrito. De facto, no quadro de electrificação do pais, balanço de Dezembro de 1926 (o mesmo estudo anterior) o concelho de Constância aparece-nos sem rede eléctrica. Em 1939 a Hidroeléctrica do Alto Alentejo explorava já o Concelho de Constância.

É um 1945 que surge finalmente a criação da Hidroeléctrica do Zêzere, cabendo-lhe numa primeira fase a realização do projecto hidroeléctrico mais emblemático deste período, a barragem e central de Castelo de Bode.

Segundo a tese que seguimos de perto, esta empresa viria apenas a realizar três aproveitamentos hidroeléctricos no rio Zêzere, Bouçã, Cabril e Castelo de Bode, que inaugurou entre Janeiro de 1951 e Outubro de 1955. Em Fevereiro de 1954, o outro aproveitamento que também fazia parte da concessão que lhe tinha sido atribuída em Dezembro de 1945, o aproveitamento de Constância, no rio Zêzere, foi suspenso devido ao seu reduzido interesse económico ficando, no entanto, essa decisão para reavaliação posterior, adianta o autor.

Nem as câmaras municipais nem as Juntas de Freguesia dispunham de meios para a produção de energia. Assim,  limitavam-se a  proceder à exploração de minúsculas redes de distribuição com a energia que lhes era fornecida pelas grandes companhias eléctricas.

No caso da Junta de Freguesia de Montalvo,  de acordo com a dissertação de João Figueira, apesar da rede eléctrica ter sido construída a expensas da Câmara Municipal de Constância, esta Junta solicitou que a sua gestão ficasse a seu cargo pedido que, esclarece,  foi aceite, «tendo esta Junta explorado esta concessão desde 1935 até Abril de 1957, altura em que a Câmara Municipal resgatou a concessão», termina.

Na vila de Constância existia uma figura típica o «Zé Alho», pau para toda a obra camarária, que zelava pelos velhinhos candeeiros.  Era uma figura estimada por todos e que ainda não saiu da memória de várias gerações.

Uma outra curiosidade. Em 1968 a tarifa do preço de venda de energia para usos domésticos (escudos/kWh) era de dois escudos, como nos revela João Figueira citando como fonte a estatística das fontes eléctricas em Portugal.

Com a publicação de nova legislação em 1971, a Câmara de Constância veio a integrar a Federação de Municípios do Ribatejo em cuja composição  participavam outras câmaras do distrito de Santarém, como Vila Nova da Barquinha, Golegã  entre outras.

Esta integração nas redes eléctricas não foi feita de imediato no caso das câmaras de Constância, Mação, Sardoal e Vila Nova da Barquinha,  obedecendo a uma plano faseado e gradual de três anos, debaixo da supervisão da Federação  então  constituída. Na opinião de João Figueira não era dada nenhuma explicação para esta situação. Segundo este autor «tal dever-se-ia às debilidades das redes de transporte de energia e de interligação com os restantes». A integração das redes eléctricas destes municípios na Federação foi assim realizada de forma gradual entre finais de 1971 e meados de 1977.  Em Janeiro de 1972 integraram a Federação os municípios de Alpiarça, Cartaxo, Constância e Golegã. A rede eléctrica da vila de Constância era muito inconstante. Sempre que fazia mau tempo a luz faltava, levando os piquetes várias horas para  resolver os problemas. Lá vinha o Mário, o Fernando, o Chico, o José Jorge, sempre prontos e operacionais. A EDP tinha uma oficina no Bairro Novo. Recordo-me bem de na minha infância faltar a luz na rua e em casa, com frequência. Valiam-nos os velhinhos candeeiros a petróleo. A vila tinha várias fases na rede. E ficava mesmo às escuras com frequência. Qualquer coisa, dizia-se logo, «foi na cabine». E não era, claro.

Na edição de 1 de Maio de 1971 do jornal «Nova Aliança, Joaquim dos Mártires Neto Coimbra, cronista de Constância e meu antigo mestre dá-nos a seguinte notícia: «Foi inaugurada no Sábado de Aleluia a luz eléctrica não só na freguesia de Santa Margarida da Coutada, como no Lugar de Santo António, pertencente à freguesia e Vila de Constância».  Na mesma notícia J. Coimbra refere que este melhoramento doi iniciado por Júlio Feijão, anotando que a sua conclusão se deveu, passo a citar, «ao dinamismo do actual presidente da Câmara Municipal,  sr Aurélio Dias Nogueira».

Em virtude da desastrosa participação na Grande Guerra, a partir de 1914 assistiu-se a um relativo abrandamento da instalação das redes eléctricas. O autor do estudo que vimos citando aponta  dificuldades no  acesso aos equipamentos e aos técnicos  os quais, sublinha,  «na maior parte dos casos, eram dos países beligerantes». A título de curiosidade refere ainda  que algumas instalações conseguiram ser concluídas “à justa”,  dando o exemplo do caso de Fafe, rede inaugurada em Outubro de 1914, «por os técnicos alemães envolvidos neste empreendimento terem regressado à Alemanha para serem incorporados nos exércitos». Noutros casos os projectos foram mesmo adiados por vários anos, como em Bragança etc. O que as guerras fazem à humanidade dos homens…

Fazendo a síntese, João Figueira. Conclui: «Passado o período da Guerra e os difíceis anos que se lhe seguiram, assistiu-se a uma forte aceleração deste processo nos anos 1920 atingindo-se no final deste período os 116 municípios com redes eléctricas instaladas», ou seja,  remata, «mais 88 novas redes eléctricas instaladas, a par da ampliação das redes já existentes em alguns concelhos».

José Luz (Constância)

 

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Sexta-feira, 26.02.21

Histórias de vida no feminino” é o título da iniciativa com a qual o Museu dos Rios e das Artes Marítimas de Constância. vai assinalar o Dia Internacional da Mulher. A actividade é dinamizada online. De acordo com o noticiado «Na história da nossa vida todos temos, pelo menos, uma mulher que pela sua atitude corajosa, generosa e resiliente ou pela sua criatividade ou habilidade, foi notável aos nossos olhos…».. Com o intuito de perpetuar a história dessas mulheres que nos marcaram ou marcam, o Museu lança o repto aos participantes que queiram enviar textos e fotos para defesa das memórias colectivas os quais depois divulgará. Quando na edição anterior do grupo das redes sociais «Amigos de Constância», creio que em 2011 ou 2012, referi um caso de uma mulher de Constância que começou a trabalhar desde muito cedo, a acartar barrotes do “rio” e que fazia as redes de pesca , o então presidente quis logo saber quem era para se fazer uma espécie de retrato sobre essas memórias. Até hoje a mulher do «rio» que nos anos 40 fazia trabalho de homem, ainda não foi contactada. Por acaso a pessoa que atrás refiro é uma das mulheres que chegou a integrar o Núcleo de Constância do MDM no início dos anos 90. E, já agora, era uma simpatizante activa do MDP/CDE. mesmo antes da Revolução de Abril e sempre se manteve fiel a esse ideário, até à sua dissolução. Com ela assisti às sessões políticas durante a Revolução e no PREC no antigo cine-teatro, quando no calor dessas assembleias se faziam acusações de «vira-casacas».

Com ela cheguei a ir ao posto antigo da GNR várias vezes, por causa dos PIDES que em 1974 andavam fugidos por aqui e eram objecto de mandado. Recordo-me pelo menos de dois casos em que esses agentes se refugiaram na zona norte da EN nº3 da vila,, pela calada da noite. Sabia-se dessas movimentações na zona e o perfil dos ditos não enganava. Com o meu pai muitas vezes de prevenção nos quartéis, chegado da guerra de África, vivíamos as contingências duma iminente guerra civil. Como isso marca uma criança! Estávamos colados ao antigo rádio, procurando os postos que mais ousadamente furavam o regime ou, depois, a «situação». Com ela assisti no cimo da encosta do Zêzere, aos vôos rasantes nos Pára-quedistas em 1975 quando pouca gente ousava sair de casa. Uma história de vida que passa pelo «rio» a acartar barrotes que vinham a flutuar nas águas e que depois eram transportados para as camionetas. Ganhava 12 escudos por dia e trabalhava para os empreiteiros dos Vieiras e dos Cruzes. Ganhava como as mulheres maiores de idade.

O peso e a violência da tarefa, que os homens ali exerciam, era também o seu carma. Andou pelo campo na apanha da azeitona, esteve em serviço de casas no Algarve, de parentes da família Duarte Ferreira, em Alpiarça, numa Quinta famosa, Dom João, que recebia o Presidente da República ao fim de semana, na Golegã, na casa de um médico conhecido, eu sei lá. Uma história de vida que começou em Abrantes e em Lisboa, em casa da tia e da avó que a criou, e que passou por Viseu, depois, já com os pais e irmãos, várias vezes, até chegar a Constância em 1937. O pai era militar e foi mobilizado várias vezes o que implicava levar a família às costas. Uma história de vida que passou depois por Tancos militar onde foi a primeira funcionária a coser pára-quedas em Portugal. O machismo de Kaulza de Arriaga viria a reservar aos homens o monopólio dos pára-quedas. E os empregos na área foram extintos para as mulheres. Anos de serviço perdidos. Memórias de quem ainda tem a memória de ter sido vítima de um crime atroz em Viseu, de uma tentativa de rapto, a caminho da Quinta do Viriato. E tantas vivências que fazem da vida desta mulher uma película agridoce que só me orgulha do ventre de onde saí. O então presidente da CMC que desistiu rápido de perseguir o seu retrato, perdeu a oportunidade de um retrato de vida. Outros haverá e que agora esta iniciativa da edilidade de procurar retratos de vida de mulheres anónimas, os ajude a recuperar para memória de todos aquilo que ontem rejeitaram.

Desde a participação nos teatros, nas revistas, nas operetas, no rancho, nos cortejos de oferendas, quer como membro quer como filha de um dos principais organizadores, trabalhava no duro para a comunidade constanciense e era ainda em casa o braço forte duma família numerosa. Sempre lutou e labutou pelo amor da sua vida, «contra tudo e contra todos» como se fiz na gíria.. E fugia de bicicleta para ir ao seu encontro nesses tempos autoritários de namoro à janela a lembrar os tempos medievais. Mas não! Esta mulher não aceitava a tradição pouco consentânea com a dignidade das mulheres. É uma história linda de amor A dessa mulher e do seu marido o qual dentro de dias, faria 90 anos. É a história da mulher que a câmara chegou a querer retratar antes de saber o nome. Sabia parte da história. Mas não sabia o nome. E quando o soube, já não queria saber…

É também uma história de sofrimento e de luta heróica contra a maldita doença, há duas décadas. É um testemunho de resistência como nunca vi. Faço parte dessa história. Estou dentro da história. É a história da menina que um dia destravou o carro de praça do tio, o «Fonaca» de Abrantes, o padrinho, Chauffeur, fazendo-o entrar pelo Chave d’Ouro adentro na Barão da Batalha, ali, paredes meias na rua onde nasceu, das Flores. A menina que nos anos 30 calcorreava as ruas de Lisboa, descendo pela Luciano Cordeiro até perder de vista a sua tia artista que tocava piano e era corista. A menina que espreitava da varanda no Largo da Anunciada e que viu no Coliseu a estreia de «Jesus Cristo». Meu Deus, há quantos anos foi isso. A menina que ia de comboio de Abrantes para Lisboa com a avó a quem o regime sequestrou o marido para as colónias. A avó, a peixeira de Abrantes com quem percorria a Rua da sardinha. Esta também era uma heroína que ficou com uma data de filhos para criar. Histórias de vida de uma mulher anónima no feminino. Para celebrar o dia internacional das mulheres..

José Luz (Constância)

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Domingo, 21.02.21

Com as últimas conquistas no território algarvio em 1253 e a consequente estabilização política do país, o rio Tejo assumia, enquanto eixo de comunicações, uma importância crescente. Este facto acentuou-se pela circunstância de Lisboa se ter tornado a capital do Reino e a sua  principal potência  económica. Dom Dinis ao promover as obras do Tejo e o seu sistema adjuvante, fundou Salva­terra de Magos e Muge, incrementando de alguma forma as navega­ções fluviais, facto a que não deixará de ser alheio  o surto da capital lisbo­nense (1).

 

Dos portos do médio Tejo, San­tarém, Abrantes e Punhete (2) eram sem dúvida os mais importantes. O sal, o peixe (seco, salgado, fumado ou fresco) e os panos, além de outros produtos de uso menos frequente, eram as mercadorias que subiam o Tejo desde Lisboa até aqueles por­tos. Para a capital transportavam-se madeiras, azeite, vinho, coiros, mel, cera, ferro e mesmo peixe do rio (sável, azevias, lampreias) (3).

No ano de 1552, de 1490 barcos de navegação fluvial que existiam em Lisboa e nos restantes portos do Tejo, 180 pertenciam a Abrantes (100 eram de carreira e 80 andavam na pesca), 100 a Tancos, 120 a Punhete, Asseiceira e Carvoeira e 100 a San­tarém, que constituíam os principais portos do Tejo (4).

Os produtos transportados seri­am sensivelmente os mesmos do século anterior com uma novidade: a grande quantidade de melões provenientes das lezírias de Santarém e de Abrantes (5). O vi­nho que chegava a Lisboa por via flu­vial, pelo que se depreende do «Pranto de Maria Parda», deveria ter muita importância e tomava o nome dos portos de embar­que Santarém: Abrantes e Punhete (6).

A raiz de todo o desenvolvimento de Punhete esteve sempre, estou cien­te, na sua privilegi­ada posição estraté­gica. Sabe-se, foi objecto de abundan­te legislação régia, sendo de referir que por alvará de D. Pedro I, Punhete era ponto obrigatório de embarque de to­das as mercadorias daquela zona que se destinassem a Lis­boa (7).

Abundante legislação se pode encontrar em seu favor, e mesmo con­tra. Por exemplo, numa carta do rei D. Pedro I, dada em 13 de Abril de 1358 (era de 1396), o monarca, conside­rando que a vila de Santarém, «he huu dos boons e dos mjlhoores lugares do meu senhorio», e estava des­povoada de «companhas» e de mais coisas necessárias para o serviço ré­gio, resolve atalhar a essas carênci­as. O lugar de Punhete era um porto activo, o que causava prejuízo ao crescimento populacional de Santa­rém. Por tal motivo o rei ordena­va: 1) «que nenhuas barca nom pa­sem de santarem pera cima com nenhuas mercadorias saluo com panos e com al que comprir pera mantijmento daqueles que esse mantijmento leuarem pera ssy ou pera outrem» (8)

Num docu­mento encontrado na Chancelaria de D. João I tem-se notícia da atenção da Dinastia de Avis dispensada a Punhete, então Lugar. Veríssimo Serrão dá-nos a conhe­cer uma carta do monarca, dada a 23 de Agosto de 1390 a Afonso Pires, Juiz em Abrantes: «…Sabede que os homes boons e poboradores de punhett nos enviaron dizer antigamente que a memoria  dos homes non era em con­trario per seus pri­vilégios e seu foral que lhes foi dado… pelos rex os que antes nos foram E outrosy per  nos atee o tempo dora ouveram seus juízes e jurdiçam no dicto loguo de todollos feitos crimes…»(9).

Num relatório do espião castelhano Rui Dias de Vega ao rei Dom Fernando I de Aragão em 1415, este faz saber  a Castela dos preparativos que em Portugal se faziam paraaconquista de Ceuta»: «(—) El Prior et los maestres mandan fazer sendas geleotas de sessenta rremos cada uma, salvo el maestre de Santyago. Et fazenlas en el ryo de Sesar, que es cerca de Punhete, et entra en Tajo aquel rio a syete leguas de Santarem (…)». (10)

Punhete, no início do século XVI, a recordar tempos passados, mantinha-se próspera, e continuava a atrair a atenção régia. Em Outubro de 1505, aquando da deslocação de D. Manuel I, de Lisboa para Almeirim, por motivos da peste, parte da sua comitiva instalou-se ali; mais con­cretamente, a 12 de Maio de 1507, quando se assentou a cisa dos vinhos de Lisboa, a corte encontrava-se em Punhete (11).

No ano de 1571, Dom Sebastião concede a Punhete «que seja vila»declarando-se no respectivo docu­mento que no dito lugar já havia «casa e audiencia da camara e cadea e pelourinho com suas argolas e cepo e açougue» (12).

A Casa dos Sandes, senhores e alcaides do burgo e donos de quase todo o comércio no século XVI, crescera e atin­gira um desenvolvimento tal que, em 1620, o filho de D. João, o Dou­tor Francisco de Sande, já instituía, «com cabeça na sua casa da Torre e da Amoreira», o morgado de Punhete. (13)

José Luz

(Constância)

  1. Finisterra, Centro de Estudos Geográficos, Universidade de Lisboa.
  2. Decreto de 7 de Dezembro de 1836.
  3. Documentos para a História da cidade de Lisboa. Vide nota (1).
  4. João Brandão, «Tratado da magestade, grandeza e abastança da cidade de Lisboa, na segunda metade do século XVI (estatística de Lisboa de 1552)», publicado por Braancamp Freire, com notas de Gomes de Brito, Lisboam, 1923.
  5. Vide nota (4).
  6. Gil Vicente, «O Pranto de Maria Parda».
  7. Oliveira Marques, «Introdução à História da Agricultura em Portugal», 1968.
  8. Chancelaria de Dom Pedro I, Instituto Nacional de Investigação Científica, Lisboa, 1984.
  9. Chartularium Universitatis citado em apontamentos inéditos editados em policópia pelo Centro Internacional de Estudos Camonianos da Associação da Casa-Memória de Camões em Constância, então Associação Para a Reconstrução e Instalação da Casa-Memória de Camões em Constância, de autoria do saudoso Professor Doutor Veríssimo Serrão, Julho de 1991.
  10. Arquivo da Coroa de Aragão, «Cartas Reales», in Monumenta Henricina. Vide nota (9).
  11. Vide nota (9)
  12. A.N.T.T., Chancelaria de Dom Sebastião, Privilégios, citada em «Casa de Camões em Constância, maria Clara Pereira da Costa 1977.
  13. A.N.T.T., Registos  vinculares, Santarém, nº 21, vide nota (12).

 

 

 

 


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Domingo, 14.02.21
 
Um dia houve um desses bailes no  palácio da Torre de Punhete (designação de então da Vila de Constância) .  Certa dama trocista, de grossos lábios,  como  Camões a não cortejasse, declamou para espanto dos convivas:

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"Adeus meus olhos
Para te dizer meus olhos
Não tendes senão um
Para te dizer meu olho
Julgarão que é o do...."
 
Camões não se ficou e logo disparou:
 
"Tenho visto damas formosas
Padecerem de hemorróidas
de hemorróidas  no ...
Mas de hemorróidas na boca.
 Só as padeces tu"
 
Dou-vos este presente apócrifo que ouvi da minha saudosa prima D. Maria José Bretes a qual por sua vez o tinha ouvido contar à  velhinha Mónica Bretes sua antepassada.
O sentido falsamente bocagiano dos versos, é evidente . A expressão tomei-a de empréstimo  da obra "Casa de Camões em Constância", de Maria Clara Pereira da Costa, 1977, onde se omitem os versos, por pudor? Que seja! 
 Ouvi a história de fonte autónoma ao livro, nos anos 80.
Quanto à imagem trata-se de um pormenor duma gravura de Leith Hay do primeiro quartel do século XIX, que foi reproduzida numa revista antiga "Iconografia ribatejana".
Há duas tradições na vila sobre Camões, sendo que uma delas o coloca no palácio da Torre dos Validos de Dom Sebastião. O Dr Adriano Burguete fez esta recolha na primeira metade do século XX. Na literatura há indícios da possível presença de Camões em Punhete, seja na própria poesia lírica, seja na personagem Urbano da obra "Lusitânia Transformada" de Fernão Álvares do Oriente, publicada no início do século XVII 
 
Leitão de Andrada conta-nos que naquele tempo o Tejo era manso em Punhete e que o Zêzere o cortava com grande ímpeto e represava as águas do Tejo, fazendo-as recuar, sendo causa de frequentes inundações da baixa da povoação. Fenómeno que ainda hoje acontece embora diferentemente como sabemos devido aos açoreamentos  e às barragens 
A torre de Punhete onde se reputa esteve Camões, chegou a estar separada do Castelo templário e haveria uma ponte a liga-los a crer nas informações que se atribuem aos livros da guerra de D.Miguel Pais.. 
É muito provável que o cenário duma torre rodeada de água existisse de facto no tempo do degredo de Camões.  Mas o poeta é que saberá:
"ERGASTO

Agora, já que o Tejo nos rodeia,
neste penedo, donde mansamente
murmurando se quebra a branda veia(...)"
 
José Luz (Constância)
PS- não uso o dito AOLP
 
 
 
 


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Sexta-feira, 12.02.21

Publica-se uma evocação nostálgica do comércio perdido da vila de Constância, do amigo Zé Luz:

 

Lembram-se? Dos cartuchos? Do papel pardo (desperdício da velha reciclagem)? Eram usados nas mercearias da vila de Constância e um pouco por todo o lado.   Na vila,  podiam ser encontrados  no «João Costa», na «Mari Lopes», na «Marineta», no «Zé Rebimbas»,  no Sr Raimundo, na Drogaria do Sr Aurélio e, depois de usados, fazíamos “gatos” na escola com eles, consumidas as especiarias  que os mesmos acondicionavam.

Antiga mercearia do Isidoro Burguete nos anos 20 ou 30 do século XX, cujo edifício perdeu recentemente a sua trapeira típica e bem assim, perdeu um fresco do pintor Joaquim Santos agraciado por dois chefes de Estado. Tudo no centro histórico protegido por lei.

Nas compras,  gostava de sentir o cheiro do colorau, da pimenta, da canela,  da erva doce, eu sei lá.   Era uma verdadeira miscelânea dos sabores que emanava dos armários da Mari Lopes, ali,  a meio da Rua de São Pedro, junto à casa do O’ Neill. Eu gostava das texturas e adorava «sentir o som» do papel vegetal com que se embrulhava a marmelada.. Açúcar ao peso, era ao peso. Agora… já não há  aromas. Vem tudo embalado, selado, cerrado, escondido, aprazado e legalizado. Pronto!  Estamos integrados na União. E o sabão? Aquelas barras imensas azuis e cor-de-rosa que eram cortadas na lâmina, na medida que se pedia e queria. «Quem está a seguir, por favor?!», apelava a minha prima Lurdes, funcionária exemplar da loja do «João Costa» (lá em casa assim  se continuava a chamar a loja do primo . O pai dele,  foi um dia ao Coliseu ver a revista «O fim do Mundo» e… morreu de ataque cardíaco, não sei bem se em 1934). Os clientes eram tratados com gentileza, com fineza, em todas as lojas do burgo.  Sempre. Sim!, a vila era habitada na maioria das casas. Vivia-se a «Primavera marcelista» e depois. despontava a Revolução.  Essa foi a minha infância.  Uma infância em que o meu pai andava na guerra além mar. Mas o açúcar – as crianças adoram açúcar – era mascavado e amarelo.   As sombrinhas da Dona Beatriz, ali dependuradas na montra verde da papelaria. Os armários de parede da Mari Lopes, aqueles armários com gaveta aberta e folgada em baixo,  eram um mimo. Aquele sobrado, um espelho. O atendimento, esmerado. Até o timbre da voz da Mari Lopes era o adequado para a função (a voz é o retrato da pessoa, da sua alma) Era assim na vila. Descia-se o Arco e, lá em baixo, quase defronte da antiga mercearia do século XVIII , entrava-se na loja do «Zé Rebimdas e da mulher a Dona Mariana. O trato antigo  que dispensavam e a conta no papel pardo com a prova dos nove, o «deve e haver» cheio de páginas… esse ambiente, essa «película do tempo parado». Anteriormente havia ali, paredes meias, a loja do Zé Baptista e da mulher, a Dona Elisa, dos célebres queijinhos do céu. Mais tarde foi pronto-a-vestir. Ah! E havia a fabrica das camisas. E a Dona Teresa do «Cação»? Onde mais tarde morou o escritor Baptista Bastos, pegado com a casa onde no despontar do século tinha nascido o grande Poeta Tomaz Vieira da Cruz – olvidado localmente pela estupidez e ignorância dos homens e da inveja que sempre acompanhou os patrícios de toda a terra. Maldito pecado de Caim. O bacalhau do Natal da Dona Teresa era uma obrigação. Que maravilha!« Embrulhado à antiga».  «Vai lá à Marineta!» (a Maria Neto tinha sido a sogra da Dona Teresa,  com loja no Olival, e o nome ficou na memória dos locais). Natal! O presépio da Dona Teresa, minha primeira catequista, era um primor. As suas figuras de barro faziam o encanto das crianças que por lá passavam várias vezes ao dia.  Os caminhos eram feitos com farinha (lá em casa também era assim).  A cabana do Menino Jesus, um encanto. No «Santos Costa» («Vai lá abaixo ao João Costa!» dizia a minha mãe), era um mundo de gente de todo o lado.  Ia lá também ao petróleo, num piso inferior (o meu primo João Costa, filho do fundador, Manoel, tinha sido o empresário das antigas bombas onde havia um depósito de água que a minha avó Flora (sobrinha do fundador da grande empresa) enchia com cântaros, num eterno e pesado labor, mal pago. Ficou essa memória para herança. Na loja, passava pelo escritório dos meus primos Galiano e Angelina, onde se faziam as “letras” e todos os contratos da grande indústria secular das redes de pesca. Vinha gente do Minho encomendar as alvitanas, as narsas, os tresmalhos, Também fiz muitas alvitanas em criança. Aquele escritório… ficou-me gravado o  «som do seu silêncio».  Os meus primos… falava um de cada vez.  Com uma fluência e cadência coordenadas.  Recebiam-nos (a minha e à minha mãe). Primeiro tocávamos uma campainha  no rés-de-chão e a ordem era logo para subir. A loja era um verdadeiro «centro de comércio». A mercearia, as roupas do pronto-a-vestir, o armeiro (vinha gente de todo o país comprar armas), a secção baixa das loiças, quanta oferta no «Santos Costa» – o «João Costa» -, passo o quase pleonasmo. Até a velha cadeia onde metiam os caixões. E quando a cheia ameaçava a loja, os seus funcionários accionavam um plano de emergência caseiro, habituados àquela rotina.  Há registos das cheias desde pelo menos o tempo de Camões.  É ver a «Miscelânia».  Camões teria estado preso na Torre, da Ordem, rodeado de água, esse cenário é potencial! Alguns investigadores do século XIX não viram o filme todo…  À indústria das redes aderiu a  Drogaria (mercearia, drogaria, papelaria). A vila oferecia um   quadro pitoresco aos visitantes, desde a Olaria ao Olival.  Era ver as mulheres da vila sentadas à soleira da porta.  No Olival, a Dona Olívia ensinou gerações, diziam-me.  Ainda  vi durante vários anos,  as artesãs Zulmira, a Jaquina da Ana Bogas, a Maria Morais, a mulher do «Cacilhas», a Isabel da condução,  a Luci Barreiro, a minha mãe, a Dona Adelaide do «Santos» taxista, a Mari Lena, a Manuela do Alfredo, tanta gente nessa indústria.  Falava-se que o mestre das redes tinha sido o «Tonho Casca» que foi e veio da Grande Guerra . O nylon (dantes era algodão)  cortava-nos os dedos, pois os nós das malhas tinham de ser firmes. Quanto maior a malha, maior a dor produzida, dada a frequência  dos movimentos  dos dedos.  Recordo-me de um dia ter feito carreiras para uma cabeça de 750 malhas.   Ainda tenho as agulhas e as palhetas da malhas.

Antiga mercearia do século XVIII, cujos armários de parede foram destruídos recentemente aquando das obras de reconstrução, apesar dos meus sucessivos apelos na net. Desejo que o projecto, contudo, tenha o maior sucesso.

Normalmente  as alvitanas eram de 12 vinténs, 250 malhas e doze carreiras. Aos pares e  entrançadas. Voltando à loja… as enormes peças de fazenda,  as montras. A vila do meu tempo de criança e de juventude.  Constância era assim!  Vista Por Dentro! As tabernas, da Conceição Coimbra, do meu primo Mário Barbisco, da Mari Dona – o cheiro do peixe e das favas fritas era um chamaril na praça.  A barraca do Cuchinho, de canas, junto ao Tejo. A praça, de semana. E ao Domingo? Cheia de gente.  Levantava-me cedíssimo  pois às sete de matina  os suspiros e as ferraduras já quase se esgotavam. E os vendedores ambulantes? Vinham de Martinchel, das Limeiras, de Montalvo, das Amoreiras, eu sei lá. A nossa vila era tão diferente. Está pior! Ah! E havia a loja do primo Raimundo com os amendoins e o aniz. Havia comércio. A loja do João Pereira , que montava as antenas e vendia televisões. O saudoso Ercílio que tudo resolvia. A Dona Elvira, com a sua paciência para dar conta de tanta variedade de produtos. O Talho da Salcheiro na praça, o do Manel do Café,  o do casal dos porcos construído junto às ruínas da antiga praça de toiros de que há registo escrito no século XIX.   E o restaurante da Arroçada- sA padaria da dona Luísa.  Ah! A padeira ambulante que vinha duas vezes por semana do Alentejo.  O pão, de quatro canto, vinha quentinho.  Qu delícia logo que  barrado da geleia, ou do doce de tomate, ou do doce de pedaços de marmelo. Tudo acompanhado com uma grande caneca de café.  Bem composto no estômago lá voltava às minhas recolhas das antigas tradições, de porta a porta. Guardo zelosamente esses cadernos. O café da Ponte, perto da antiga «taberna» das velhas Burguetes, tias das velhas Burguetes que conheci,, o café do bairro dos bailes tradicionais onde a minha família foi ver a ida do homem à lua (bebé incluído). O café «Estrela» na praça que nos anos 20 e 30 era a mercearia do Isidoro Burguete, pai do escritor Meira Burguete autor do «Caso de Rio Maior», da família do escritor  Elviro da Rocha Gomes. O Clube Estrela Verde, tão concorrido à noite para as cartas, para o orfeão, para o teatro, para a biblioteca, para o ping pong, para o bilhar, para a sala da televisão, para o bar. A Casa da Sopa, com as aulas de música do padre João, com o pingo pong (onde havia antigamente a  Associação de São José. As lojas do Salgueiro, com muitas novidades.  As barbearias do «Cação» e do Lino. E a Nanda cabeleileira. A Mimi cabeleileira. A dona Beatriz Gouveia cabeleileira.. As vendedoras de ovos., de galinhas e de coelhos. A Mari do Peixe do Cagaréu, gente muito honesta, trabalhadora e humilde. A taberna da Ti Cesaltina, onde ia ao carvão. A Júlia do Sapateiro que tinha também pronto-a-vestir. A oficina dos mecânicos na João Chagas onde o Elias tinha em tempos o armazém, ao lado do velho e desaparecido «Sport Club Strêla Verde». O fotográfo na Luís de Camões defronte da antiga câmara.   Na farmácia, o Godinho (que não passava sem a sua aguardente purificadora) e o sr Henrique da farmácia, irmão do poeta Tomaz. O relojoeiro Ramos. A oficina do Zé David que em tempos recuados teria sido um celeito. E os antigos celeiros do Dr Godinho. Os tendeiros. A venda de arraiolos, particular.

Antiga Loja «Manoel dos Santos Costa», do tio da minha avó Flora da Luz. As pedras seculares partiram numa camioneta. Desejo que regressem e que o projecto tenha o maior sucesso, enquanto requalificação inevitável da baixa da vila, zona de protecção histórica.

Paz à alma da Dona Etelvina, a grande mestre na vila dessa arte difícil só para alguns, do ponto dois e três. As mulheres que faziam colchas de renda e não só. Saudades da vila de Constância. de uma vila feita de famílias conhecidas e de parentes. Saudades de gente que se respeitava. Saudades das idas à quinta de Santa Bárbara ao lagar, na minha bicicleta,  apeado, pelos antigos caminhos, transportando no velocípede  as saca sde azeitonas. Na quinta, havia venda farta de fruta variada, a saber,  ameixas, pêros (não são maçãs), e outras maravilhas. Saudades da apanha da azeitona. De ver lavar no «rio». De ver vender o peixe à porta, de ver vender os queijos que, depois se secavam e punham «de azeite».  Saudades de ouvir esses quase pregões: «Teeenho fataaaça!», «Teeenho «boooga». Saudades de ver esses fogareiros pela vila a ser acesos para a grelha do peixe. Saudades das noites de convívio no Clube, no cine-teatro histórico (que substituíram pelo mamarracho inútil). Saudades dos ensaios permanentes, do rancho, do teatro, do orfeão eu sei lá, Saudades da Constância que perdemos!  Saudades de tantas marchas populares.

Memória de ouvir falar da carvoaria defronte da Casa da Dona Adelaide Sommer, da loja da Nazaré nas escadas da São Pedro, do forno da Paralva, na Rua de São Pedro confinada com o Avelar Machado, das duas casas comerciais da Etelvina Gil, na praça, da taberna do primo Eduardo e do Talho do Leitão de Abrantes, da loja da Sara, da Pensão da Rebolas (Pensão Central), da Pensão da Jaquina Ferreira, pensão Ribatejo, (a sobrinha que me disse que levava as refeições à cabeça para a base, para os militares.) Memória ainda de tantas e memórias sem fim…

José Luz (Constância)

PS – não uso o dito AOLP. este texto é telegráfico. Assim deve ser lido…

 

 



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Terça-feira, 12.01.21
 



São Julião em Punhete?

Uma hipótese a explorarPré-visualização da imagem

 

 

Nem todos os santos constarão da lista do calendário romano. Será o caso de alguns santos denominados de «São Julião». Sabemos que o Concílio mandou que só constassem no calendário apenas as festas com inegável importância universal, remetendo-se assim para o direito particular as restantes celebrações. Segundo o martirológio romano (últimos ajustes) celebra-se a 6 de Janeiro o dia de São Julião e Santa Basilissa. São estes santos que se veneram na igreja matriz da vila de Constância. Na minha opinião não é certo que este casal tenha sido sempre aqui venerado. Há um outro São Julião que poderá ter sido casado com Ireneia, nome depois contraído em Iria, opinião publicada por gente entendida na matéria. Em Punhete, actual vila de Constância, há efectivamente memórias escritas de São Gião, contracção de São Julião, e de Santa Iria (oratório do Palácio da Torre, antigo Castelo templário). E, à semelhança de outras localidades, haverá eventual confusão com outro São Julião como já referi.



Uma questão preliminar se coloca então: quem foi este orago, São Julião, da paróquia de Constância? Há vários santos com este nome.



No que concerne a São Julião e Santa Basilissa (século III), estes terão feito voto de castidade porém, Julião, terá sido forçado pela família a casar-se com Basilissa. O casal transformou a sua casa num hospital, onde chegaram a atender mais de mil pessoas. Durante as perseguições de Diocleciano, Julião foi decapitado após ter sido preso pelo governador de Antioquia, no Egipto. Basilissa morreu pacificamente. (1)



São Julião é o padroeiro de várias freguesias como São Gião. Essa denominação aparece em Constância, por exemplo, em 1536. (2)



Curiosamente,. em 27 de Março de 1822, a propósito da trasladação da paróquia para o actual templo (na sequência das invasões francesas), somente existe referência oficial à trasladação da imagem de São Julião: «continuando como orago da paróquia» (3)



As actuais imagens existentes na Igreja Matriz (São Julião e Santa Basilissa) terão sido oferecidas no século XIX por uma família do Alentejo, por via de uma promessa. A encomenda a Lisboa terá resultado no envio por barco de duas imagens? (4)



Por todos estes motivos terá sido o nosso São Julião originário confundido com um dos seus homónimos? O problema é intrincado, tem solução canónica, mas a história tem outros desígnios e motivações.



Na lista dos santos que nos é facultada pela «Legenda Dourada» de Jacques de Voragine (5) surgem-nos vários santos com este nome entre os quais um São Julião, hospitalário.



Este último São Julião num acesso de ciúme terá morto por engano os seus pais . Este parricídio tinha-lhe sido profetizado por um cervo, com cara humana, que ele perseguia e a que não dera valor. Decidiu Julião redimir-se deste crime e, mais a sua mulher (cujo nome Voragine não revela), retiraram-se os dois para as margens de um grande rio, onde muitos perdiam a vida, e aí estabeleceram um grande hospital, onde poderiam fazer penitência. E estavam constantemente ocupados a fazer passar uma ribeira - «a ribeira» - a todos os que ali se apresentavam. E a receber todos os pobres. Um dia Julião acolheu no seu próprio leito um homem que lhe apareceu e que morria de frio. De repente aquele que parecia coberto de lepra levantou-se branco como a neve para o céu e disse ao seu hóspede: «Julião, o Senhor enviou-me para vos advertir que ele aceitou a vossa penitência e que brevemente ambos repousarão no Senhor». O que aconteceu segundo a lenda.



Jorge Campos Tavares informa-nos que os pais deste Julião eram espanhóis. Mais acrescenta o autor que se ignora a época em que ele viveu. (6)



Podemos sempre conjecturar como alguns já o fizeram com propriedade que São Julião e a mulher se fixaram no local onde actualmente existe Constância. Nos textos em latim e em francês atribuídos a Jacques Voragine há uma referência a um grande rio (o Tejo?) e, por outro lado, a uma ribeira (uma ribeira do Tejo, o Zêzere?) referentes ao local onde São Julião se fixou com a esposa. Uma pesquisa aturada sobre a origem das palavras (esse desenvolvimento não é matéria para este artigo) permite-nos esta conjectura última. Quem reproduz e não conhece Constância e deixou no texto duas expressões distintas «grande rio» e «ribeira», dá-nos um indício de autenticidade! Uma ribeira não desagua no mar em princípio...



Certo, certo é que não se pode confundir este casal (que não foi mártir, donde, sem palma) com o outro do Egipto (Julião e Basilissa). Só por aproximação ou semelhança se poderá considerar mártir este casal cujos pais de Julião seriam espanhóis e se fixou onde havia um grande rio e uma ribeira - atenta a tradição da Igreja.

No recorte de uma gravura de Neale surge no tempo das invasões francesas a velhinha igreja paroquial de São Julião que, parece, já existiria no século XIII. A pia baptismal, de oitocentos anos, existe na actual matriz, para onde foi trasladada, segundo me contou o saudoso cónego José Maria d'Oliveira Rodrigues.



José Luz (Constância)



Post Scriptum - Se, efectivamente, os seus pais eram espanhóis e se, o nome de Punhete teve origem na Catalunha (7) e foi importado pelos templários, percebe-se a devoção no Oratório do Palácio da Torre de Punhete, a Santa Iria, contracção de Ireneia mulher de São Gião, Julião? Por sinal o nome da Comenda local e do Adro e Igreja que ali existiam junto ao Palácio. A terra do grande rio e do rio afluente desse grande rio. Não sabemos a verdade. Mas é apaixonante este assunto. Há muitas coincidências. É há dados verossímeis. Ou será que esta capela a Santa Iria de cuja existência temos registo tem a ver com a Santa Iria assassinada em Tomar e que estará na origem da lenda de Punhete sobre a terra do pé torto? (8)



A estalagem de São Julião pode ter existido no sítio do antigo castelo, depois Palácio da torre. E quanto à dificuldade em se passar o rio, na época medieval essa dificuldade deve ter existido. Nós sabemos que esta zona até ao Almourol tem um historial nesse sentido. As barragens do século XX e o assoreamento milenar alteraram a força das águas. Leitão de Andrada falava do ímpeto das águas em.. Punhete.



(1)Enciclopédia Católica online, publicada por Kevin Knight in «New Advent»



(2) Arquivo da família Themudo de Castro, Livro V, citado em «Casa de Camões em Constância», por Maria Clara Pereira da Costa e outros , 1977.



(3) Livro de «Lançamentos de Pastorais e capítulos de Visita da Vila de Punhete» transcrito por Joaquim dos Mártires Neto Coimbra em 1954.



(4) Contava o cónego José Maria.



(5) La Legende Dorée T.1, de Jacques De Voragine, Editor: FLAMMARION , Edição ou reimpressão: Janeiro de 1999



(6) Jorge Campos Tavares, Dicionário de Santos, Lello & Irmãos, Editores



(7) Catalunha e Punhete.



A documentação escrita sobre o período da nacionalidade regista inúmeros exemplos de importação de topónimos, de lugares homónimos que pertenciam a milícias internacionais. Punhete, lembra o local de um mosteiro templário na Catalunha, Punyalet e é o caso trazido à tona na obra monumental "Castelos Templários" em Portugal, de Nuno Villamariz Oliveira, da Ésquilo, pág 229, obra de dissertação apoiada pela Comissão Portuguesa de História Militar.. O topónimo Punyalet aparece de facto em "L' Arquitectura dels Templers a Catalunha", de Fuguet, S, J, Universidade de Barcelona, departamento de história de arte, 1989.



Sendo uma hipótese académica sobre a origem do nome do povoado de Punhete não pode ser ignorada pois assenta numa investigação séria, com leis próprias desta ciência. É mais do que uma lenda ou uma pura especulação. O professor José Hermano Saraiva, numa das suas vindas a Constância ( 2010) salientava o papel crucial dos Templários no povoamento deste território.



(8) A lenda conhecida em Constância e passada de geração em geração assevera que vinha um «tronco» rio abaixo e que alguém lhe deu um pontapé, tendo ficado com o pé torto.Era a santa ,afinal. e não um tronco.

 

 


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Segunda-feira, 04.01.21


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