Quinta-feira, 06.05.21

O tipo que era Juiz de Fora, ou seja Presidente da Câmara , Gaspar Pereira da Silva e Navarro, natural da vila abrantina,  provavelmente mentiu no processo. Sustentava que o requerente, outro Gaspar, Pessoa,  era nobre e tinha ascendência relacionada com os Pessoa e Amorim de Coimbra. (1) 

Outra testemunha, cá da zona, Joaquim Alexandre de Sousa Fragoso, ''fidalgo de S.Majestade, vigário colado de São Julião de Punhete,'' também disse que o judeu Gaspar tinha nobres costados (o que era rotundamente falso) e grossos cabedais (o que era verdade). (2)

Pretendia enobrecer o rico descendente duma família de cristãos-novos do Fundão (aparentado com os Bívares cá do burgo) e fazer esquecer um passado ainda até há pouco vergonhoso, passava pouco tempo que Pombal abolira as distinções entre gente de nação e pessoas com ''sangue limpo''.

Isto é o que consta nos autos de Justificação de nobreza do Gaspar Pessoa, que foi o homem que se encarregou da manutenção das pontes de Punhete e Abrantes, durante as invasões francesas e ao mesmo tempo tinha rendosos negócios com a tropa.

Também consta uma árvore genealógica provavelmente falsificada.

O divulgador Manuel Castelo Branco deixou-se enganar pela falsificação setecentista, ao estudar  esta ascendência, num estudo de 2008, que a autora que seguimos, Gislaine Gonçalves Dias Pinto (''Perseguição, Nobilitação e Mácula de Sangue Cristão Novo, A trajectória da família Pessoa Tavares, (1706-1816)'') desmonta documentalmente.

O Gaspar seria enobrecido. Comendador de Cristo. Etc. Nada mau para um descendente de mercadores do Fundão, que ainda há pouco judaizavam.

O filho do Gaspar,  também Gaspar,  Pessoa Tavares de Amorim da Vargem, foi barão e Visconde da Vargem, Amorim sem o ser, Comendador de Nossa Senhora de Vila Viçosa e de Cristo, Coronel, Morgado e  Vereador da Câmara de Lisboa.  .....

A tese da doutora Gislaine é um magnífico contributo académico para o estudo da ascensão social da alta-burguesia no período pombalino.

Finalmente desta família  Pessoa.......descende Fernando António Nogueira Pessoa, ''Príncipe da Nossa Baviera'' ( Eduardo Lourenço dixit).... que nunca teve entre os antepassados, nobres medievais, pelo lado Pessoa...., por mais que um Presidente da Câmara, natural  de Abrantes, tenha ajudado a falsificar uma genealogia....

ma

(1)  e (2) in Gislaine Gonçalves Dias Pinto , Perseguição, Nobilitação e Mácula de Sangue Cristão Novo, A trajectória da família Pessoa Tavares, (1706-1816 ),tese de doutoramento na U. de Minas Gerais, 2016

ma

 

 



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Domingo, 21.03.21

Eu fallei no “mar salgado”,
Disseram que era plagiado
Do Corrêa de Oliveira.
Ora, plagiei-o do mar.
Eu sou tal qual Portugal
Faz-me sempre mal o sal
E ando sobretudo com azar.

(...)

Este senhor Salazar
É feito de sal e azar.
Se um dia chove,
A agua dissolve
O sal,
E sob o céu
Fica só o azar, é natural.
Oh, c’os diabos!
Parece que já choveu…

ler aqui 

Mar Salgado: Fernando Pessoa perante
uma acusação de plágio
José Barreto

donde se sacou

 



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Quarta-feira, 27.01.21

judeu alfredo a.png

judeu alfredo da silva.png

De como o poeta modernista, latifundiário de Avis, astrólogo, arqueólogo amador,   (ainda hoje as ''Grandes Vias da Lusitânia'' são insubstituíveis), genealogista, etc fulmina o maior industrial de Portugal (e de Alferrarede) por ''hebreu'' e mais longa lista de políticos, negociantes, intelectuais  e etc.

E dedica o livro a um amigo seu, Fernando, a quem classifica também como ''judeu''.

Toda a vida partilhou com Fernando e António Botto, a boémia e os projectos literários bem como com outros ''judeus''....

Só saiu este volume, porque, no segundo, Saa provava que Salazar era judeu e proibiram-no, segundo escreveu José Augusto França. (1)

 Alfredo Esaguy, judeu autêntico, numa dedicatória dum livro, chamou-lhe : ''o novo inquisidor (do martinho) dos judeus''  (2)

Só para acabar, Pessoa, que fez um CV, onde se definia como meio-judeu, por ascendência marrana, tem um poema anti-salazarista....onde o Prof. Salazar é acusado de ser judeu.

mn

(1) e (2) Pereira, Elisabete J. Santos, ''Mário SAA (1893-1971):Um intelectual português na sociedade do século XX ''

htpp://hdl.handle.net/10174/19145



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Sexta-feira, 07.02.20

pessoa vilhena

 



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Terça-feira, 07.05.19

untitled

Alfredo Pimenta tinha sido um republicano histórico mas transforma-se num furibundo tradicionalista e monárquico.

Neste texto, o abrantino Artur Ribeiro Lopes sova o escritor e os integralistas que tinham acabado de surgir com uma Conferência na Liga Naval.

No mesmo número da revista, Eh Real, Fernando Pessoa escreve '' O Preconceito da Ordem''

Também é uma ataque furibundo aos integralistas e ao filósofo positivista de que se reivindicavam, Augusto Comte.

Pessoa termina lapidar  '' o infeliz Augusto Comte toda a vida sofreu de alienaçao mental.''

Está explicada parte da amizade entre o abrantino Artur Ribeiro Lopes, por esta época republicano, e o genial Pessoa.

Um combate comum episódico contra os Integralistas.

Estamos em 1915.

Vinte anos depois, Ribeiro Lopes é já estadonovista, Pessoa é apadrinhado pelo Goebbels de Salazar, António Ferro e parte dos integralistas juntara-se a Salazar.

Mas outros resistem ao fascismo.

É o caso de Hipólito Raposo.

ma

 

 



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Sábado, 13.04.19

Fernando Pessoa deixou uma biblioteca de 1060 títulos já catalogada na Casa Fernando Pessoa. Há ainda parte na posse da sua família e outros volumes depositados na B.Nacional.

Terá (além do seu amigo e companheiro de jornada António Botto) tido algum livro de autor abrantino?

Só um.

De Artur Ribeiro Lopes, que foi um político e escritor (sobretudo de questões políticas)  natural de Abrantes

artur aribeiro lopes - copia

Este livro

8-323_1720_1_t24-C-R0072

que leva dedicatória a Pessoa

8-323_1721_3_t24-C-R0072

devida vénia à Casa Fernando Pessoa.

mn

Há mais alguma coisinha relacionada com Abrantes, a que voltaremos outro dia ....

 

 



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Segunda-feira, 14.01.19

Ode triunfal

 

À  dolorosa luz das grandes lâmpadas eléctricas da fábrica
Tenho febre e escrevo.Escrevo rangendo os dentes, fera
para a beleza disto,
Para a beleza disto totalmente desconhecida dos antigos.

Ó rodas, ó engrenagens, r-r-r-r-r-r-r eterno!
Forte espasmo retido dos maquinismos em fúria!
Em fúria fora e dentro de mim,
Por todos os meus nervos dissecados fora,
Por todas as papilas fora de tudo com que eu sinto!
Tenho os lábios secos, ó grandes ruídos modernos,
De vos ouvir demasiadamente de perto,
E arde-me a cabeça de vos querer cantar com um excesso
De expressão de todas as minhas sensações,
Com um excesso contemporâneo de vós, ó máquinas!

Em febre e olhando os motores como a uma Natureza tropical —
Grandes trópicos humanos de ferro e fogo e força —
Canto, e canto o presente, e também o passado e o futuro,
Porque o presente é todo o passado e todo o futuro
E há Platão e Virgílio dentro das máquinas e das luzes eléctricas
Só porque houve outrora e foram humanos Virgílio e Platão,
E pedaços do Alexandre Magno do século talvez cinquenta,
Átomos que hão-de ir ter febre para o cérebro do Ésquilo do século cem,
Andam por estas correias de transmissão e por estes êmbolos e por estes volantes,
Rugindo, rangendo, ciciando, estrugindo, ferreando,
Fazendo-me um acesso de carícias ao corpo numa só carícia à alma.

Ah, poder exprimir-me todo como um motor se exprime!
Ser completo como uma máquina!
Poder ir na vida triunfante como um automóvel último-modelo!
Poder ao menos penetrar-me fisicamente de tudo isto,
Rasgar-me todo, abrir-me completamente, tornar-me passento
A todos os perfumes de óleos e calores e carvões
Desta flora estupenda, negra, artificial e insaciável!

Fraternidade com todas as dinâmicas!
Promíscua fúria de ser parte-agente
Do rodar férreo e cosmopolita
Dos comboios estrénuos,
Da faina transportadora-de-cargas dos navios,
Do giro lúbrico e lento dos guindastes,
Do tumulto disciplinado das fábricas,
E do quase-silêncio ciciante e monótono das correias de transmissão!

Horas europeias, produtoras, entaladas
Entre maquinismos e afazeres úteis!
Grandes cidades paradas nos cafés,
Nos cafés — oásis de inutilidades ruidosas
Onde se cristalizam e se precipitam
Os rumores e os gestos do Útil
E as rodas, e as rodas-dentadas e as chumaceiras do Progressivo!
Nova Minerva sem-alma dos cais e das gares!
Novos entusiasmos de estatura do Momento!
Quilhas de chapas de ferro sorrindo encostadas às docas,
Ou a seco, erguidas, nos planos-inclinados dos portos!
Actividade internacional, transatlântica, Canadian-Pacific!
Luzes e febris perdas de tempo nos bares, nos hotéis,
Nos Longchamps e nos Derbies e nos Ascots,
E Piccadillies e Avenues de L’Opéra que entram
Pela minh’alma dentro!

Hé-lá as ruas, hé-lá as praças, hé-lá-hô la foule!
Tudo o que passa, tudo o que pára às montras!
Comerciantes; vários; escrocs exageradamente bem-vestidos;
Membros evidentes de clubes aristocráticos;
Esquálidas figuras dúbias; chefes de família vagamente felizes
E paternais até na corrente de oiro que atravessa o colete
De algibeira a algibeira!
Tudo o que passa, tudo o que passa e nunca passa!
Presença demasiadamente acentuada das cocotes
Banalidade interessante (e quem sabe o quê por dentro?)
Das burguesinhas, mãe e filha geralmente,
Que andam na rua com um fim qualquer;
A graça feminil e falsa dos pederastas que passam, lentos;
E toda a gente simplesmente elegante que passeia e se mostra
E afinal tem alma lá dentro!

(Ah, como eu desejaria ser o souteneur disto tudo!)

A maravilhosa beleza das corrupções políticas,
Deliciosos escândalos financeiros e diplomáticos,
Agressões políticas nas ruas,
E de vez em quando o cometa dum regicídio
Que ilumina de Prodígio e Fanfarra os céus
Usuais e lúcidos da Civilização quotidiana!

Notícias desmentidas dos jornais,
Artigos políticos insinceramente sinceros,
Notícias passez à-la-caisse, grandes crimes —
Duas colunas deles passando para a segunda página!
O cheiro fresco a tinta de tipografia!
Os cartazes postos há pouco, molhados!
Vients-de-paraître amarelos como uma cinta branca!
Como eu vos amo a todos, a todos, a todos,
Como eu vos amo de todas as maneiras,
Com os olhos e com os ouvidos e com o olfacto
E com o tacto (o que palpar-vos representa para mim!)
E com a inteligência como uma antena que fazeis vibrar!
Ah, como todos os meus sentidos têm cio de vós!

Adubos, debulhadoras a vapor, progressos da agricultura!
Química agrícola, e o comércio quase uma ciência!
Ó mostruários dos caixeiros-viajantes,
Dos caixeiros-viajantes, cavaleiros-andantes da Indústria,
Prolongamentos humanos das fábricas e dos calmos escritórios!

Ó fazendas nas montras! Ó manequins! Ó últimos figurinos!
Ó artigos inúteis que toda a gente quer comprar!
Olá grandes armazéns com várias secções!
Olá anúncios eléctricos que vêm e estão e desaparecem!
Olá tudo com que hoje se constrói, com que hoje se é diferente de ontem!
Eh, cimento armado, beton de cimento, novos processos!
Progressos dos armamentos gloriosamente mortíferos!
Couraças, canhões, metralhadoras, submarinos, aeroplanos!
Amo-vos a todos, a tudo, como uma fera.
Amo-vos carnivoramente.
Pervertidamente e enroscando a minha vista
Em vós, ó coisas grandes, banais, úteis, inúteis,
Ó coisas todas modernas,
Ó minhas contemporâneas, forma actual e próxima
Do sistema imediato do Universo!
Nova Revelação metálica e dinâmica de Deus!

Ó fábricas, ó laboratórios, ó music-halls, ó Luna-Parks,
Ó couraçados, ó pontes, ó docas flutuantes —
Na minha mente turbulenta e encandescida
Possuo-vos como a uma mulher bela,
Completamente vos possuo como a uma mulher bela que não se ama,
Que se encontra casualmente e se acha interessantíssima.

Eh-lá-hô fachadas das grandes lojas!
Eh-lá-hô elevadores dos grandes edifícios!
Eh-lá-hô recomposições ministeriais!
Parlamentos, políticas, relatores de orçamentos,
Orçamentos falsificados!
(Um orçamento é tão natural como uma árvore
E um parlamento tão belo como uma borboleta).

Eh-lá o interesse por tudo na vida,
Porque tudo é a vida, desde os brilhantes nas montras
Até à noite ponte misteriosa entre os astros
E o mar antigo e solene, lavando as costas
E sendo misericordiosamente o mesmo
Que era quando Platão era realmente Platão
Na sua presença real e na sua carne com a alma dentro,
E falava com Aristóteles, que havia de não ser discípulo dele.

Eu podia morrer triturado por um motor
Com o sentimento de deliciosa entrega duma mulher possuída.
Atirem-me para dentro das fornalhas!
Metam-me debaixo dos comboios!
Espanquem-me a bordo de navios!
Masoquismo através de maquinismos!
Sadismo de não sei quê moderno e eu e barulho!

Up-lá hô jockey que ganhaste o Derby,
Morder entre dentes o teu cap de duas cores!

(Ser tão alto que não pudesse entrar por nenhuma porta!
Ah, olhar é em mim uma perversão sexual!)

Eh-lá, eh-lá, eh-lá, catedrais!
Deixai-me partir a cabeça de encontro às vossas esquinas.

E ser levado da rua cheio de sangue
Sem ninguém saber quem eu sou!

Ó tramways, funiculares, metropolitanos,
Roçai-vos por mim até ao espasmo!
Hilla! hilla! hilla-hô!
Dai-me gargalhadas em plena cara,
Ó automóveis apinhados de pândegos e de putas,
Ó multidões quotidianas nem alegres nem tristes das ruas,
Rio multicolor anónimo e onde eu me posso banhar como quereria!
Ah, que vidas complexas, que coisas lá pelas casas de tudo isto!
Ah, saber-lhes as vidas a todos, as dificuldades de dinheiro,
As dissensões domésticas, os deboches que não se suspeitam,
Os pensamentos que cada um tem a sós consigo no seu quarto
E os gestos que faz quando ninguém pode ver!
Não saber tudo isto é ignorar tudo, ó raiva,
Ó raiva que como uma febre e um cio e uma fome
Me põe a magro o rosto e me agita às vezes as mãos
Em crispações absurdas em pleno meio das turbas
Nas ruas cheias de encontrões!

Ah, e a gente ordinária e suja, que parece sempre a mesma,
Que emprega palavrões como palavras usuais,
Cujos filhos roubam às portas das mercearias
E cujas filhas aos oito anos — e eu acho isto belo e amo-o! —
Masturbam homens de aspecto decente nos vãos de escada.

A gentalha que anda pelos andaimes e que vai para casa
Por vielas quase irreais de estreiteza e podridão.
Maravilhosamente gente humana que vive como os cães
Que está abaixo de todos os sistemas morais,
Para quem nenhuma religião foi feita,
Nenhuma arte criada,
Nenhuma política destinada para eles!
Como eu vos amo a todos, porque sois assim,
Nem imorais de tão baixos que sois, nem bons nem maus,
Inatingíveis por todos os progressos,
Fauna maravilhosa do fundo do mar da vida!

(Na nora do quintal da minha casa
O burro anda à roda, anda à roda,
E o mistério do mundo é do tamanho disto.
Limpa o suor com o braço, trabalhador descontente.
A luz do sol abafa o silêncio das esferas
E havemos todos de morrer,
Ó pinheirais sombrios ao crepúsculo,
Pinheirais onde a minha infância era outra coisa
Do que eu sou hoje...)

Mas, ah outra vez a raiva mecânica constante!
Outra vez a obsessão movimentada dos ónibus.
E outra vez a fúria de estar indo ao mesmo tempo dentro de todos os comboios
De todas as partes do mundo,
De estar dizendo adeus de bordo de todos os navios,
Que a estas horas estão levantando ferro ou afastando-se das docas.
Ó ferro, ó aço, ó alumínio, ó chapas de ferro ondulado!
Ó cais, ó portos, ó comboios, ó guindastes, ó rebocadores!

Eh-lá grandes desastres de comboios!
Eh-lá desabamentos de galerias de minas!
Eh-lá naufrágios deliciosos dos grandes transatlânticos!
Eh-lá-hô revoluções aqui, ali, acolá,
Alterações de constituições, guerras, tratados, invasões,
Ruído, injustiças, violências, e talvez para breve o fim,
A grande invasão dos bárbaros amarelos pela Europa,
E outro Sol no novo Horizonte!

Que importa tudo isto, mas que importa tudo isto
Ao fúlgido e rubro ruído contemporâneo,
Ao ruído cruel e delicioso da civilização de hoje?
Tudo isso apaga tudo, salvo o Momento,
O Momento de tronco nu e quente como um fogueiro,
O Momento estridentemente ruidoso e mecânico,
O Momento dinâmico passagem de todas as bacantes
Do ferro e do bronze e da bebedeira dos metais.

Eia comboios, eia pontes, eia hotéis à hora do jantar,
Eia aparelhos de todas as espécies, férreos, brutos, mínimos, Instrumentos de precisão, aparelhos de triturar, de cavar,
Engenhos brocas, máquinas rotativas!

Eia! eia! eia!
Eia electricidade, nervos doentes da Matéria!
Eia telegrafia-sem-fios, simpatia metálica do Inconsciente!
Eia túneis, eia canais, Panamá, Kiel, Suez!
Eia todo o passado dentro do presente!
Eia todo o futuro já dentro de nós! eia!
Eia! eia! eia!
Frutos de ferro e útil da árvore-fábrica cosmopolita!
Eia! eia! eia! eia-hô-ô-ô!
Nem sei que existo para dentro. Giro, rodeio, engenho-me.
Engatam-me em todos os comboios.
Içam-me em todos os cais.
Giro dentro das hélices de todos os navios.
Eia! eia-hô! eia!
Eia! sou o calor mecânico e a electricidade!

Eia! e os rails e as casas de máquinas e a Europa!
Eia e hurrah por mim-tudo e tudo, máquinas a trabalhar, eia!

Galgar com tudo por cima de tudo! Hup-lá!

Hup-lá, hup-lá, hup-lá-hô, hup-lá!
Hé-la! He-hô! H-o-o-o-o!
Z-z-z-z-z-z-z-z-z-z-z-z!

Ah não ser eu toda a gente e toda a parte!



publicado por porabrantes às 21:40 | link do post | comentar

Sábado, 22.09.18

Foi Álvaro um jdanovista militante e acéfalo. Jdanov foi o Ministro de Staline que condicionou a política cultural do tirano e que os comunistas de todo o mundo (excepto os italianos graças a Gramsci) obedientemente seguiram.

Sobre Pessoa, sussurou Álvaro a António Valdemar

(...)''É uma obra fraquíssima, porque Pessoa quis conformar a obra poética com a mensagem política. E o resultado foi que a obra poética fracassou completamente. A ‘Mensagem’ — insistiu — é um fracasso.''  (...) no Expresso.

O homem nunca conseguiu retirar os óculos que lhe pusera o estalinismo.

Não ver num simples verso da Mensagem.....que está aí a escrita dum génio......é não saber ler........ou só saber ler o ''Soviet Digest''.

mn



publicado por porabrantes às 11:44 | link do post | comentar

Sexta-feira, 06.07.18

Em 1923, Fernando Pessoa publica ''Aviso em Defesa da Moral'' (assinado por Álvaro de Campos) e o seu amigo Raul Leal ''O Descaramento da Igreja Católica'' . Ambos os textos são um protesto contra a apreensão de ''Sodoma Divinizada'' do Leal e das 'Canções'' do António Botto e contra a campanha anti-gay desencadeada pela juventude católica de Lisboa.

Raul_Leal_-_Antécrist_et_la_Glorie_du_Saint-Esprit_(Frontispiz)

 

Pessoa distribuiu o folheto anti-censura a uma vasta lista de personalidades, uns pelo correio, outros em mão.

Entre os que receberam o médico abrantino Zeferino Falcão e o Reverendíssimo Bispo de Portalegre,que era D.Domingos Frutuoso.

D.Domingos Frutuoso

 

A cara do dominicano deve ter sido digna de se ver quando recebeu o aviso de Álvaro de Campos.

mn

ver sobre o assunto

Os destinatários dos panfletos pessoanos de 1923

José Barreto

 

publicado pela Brown University

 

donde se retirou a informação

 

  



publicado por porabrantes às 21:27 | link do post | comentar

Segunda-feira, 25.04.16

 

 

 

 

A obra principal do fascismo é o aperfeiçoamento e organização do sistema ferroviário. Os comboios agora andam bem e chegam sempre à tabela. Por exemplo, você vive em Milão; seu pai vive em Roma. Os fascistas matam seu pai mas você tem a certeza que, metendo-se no comboio, chega a tempo para o enterro.

 

Fernando Pessoa

 

 

Leia no Malomil, um texto de José Barreto, sobre as relações do divino Fernando com o fascismo, relações que não foram más, depois de escrever uma demolidora tirada destas, ia tomar a bica ao Martinho com o seu amigo António Ferro para lhe explicar de novo que era o Super-Camões.

 

fernando-pessoa1.jpg

e ainda isto, em italiano.

 

ma

 

ps- entretanto o ''fascismo'' abrantino caracterizava-se por ser o Dr.Chambel o distribuidor do ''Avante'' ao Dr.Correia Semedo, enquanto tomavam a bica na Abadia e viam as ''gajas'' passar. Isto enquanto o Sr. Dr. Correia Semedo foi solteiro, porque depois a Senhora Dona Maria da Luz proibiu-o de ter conversas destas (sobre gajas)...com o veterinário....

 



publicado por porabrantes às 08:51 | link do post | comentar

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