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Hoje, sentindo-me deprimido pela vida de Lisboa, e sabendo que no fim-de-semana não estaria cá ninguém, decidi fugir. Necessitava de ar fresco, ansiava por me encontrar na solidão do campo, cercado pela floresta (Portugal tem belas florestas) e pelo som da água a correr. Consultei um amigo de confiança, que me aconselhou a ir a Abrantes, cerca de 100 milhas acima do Tejo. Mas, pobre de mim, um português «de confiança» é coisa que não existe. Os portugueses, à semelhança dos persas, acreditam que é sempre melhor dizerem-te o que julgam que gostarás de ouvir, seja ou não verdade. É uma coisa que está sempre a acontecer-me. Ainda esta manhã, nada menos do que quatro portugueses garantiram-me que estava no comboio certo; felizmente, não foram capazes de me convencer, porque a carruagem ia na direcção oposta à que eu queria. É algo que está sempre a acontecer. Quanto a Abrantes, quando lá cheguei, após uma jornada de um tédio infinito (os comboios portugueses são inacreditavelmente lentos), tendo esperado encontrar uma pousada maravilhosa, situada nalgum castelo antigo, ensombrada por eucaliptos e na frescura de uma ribeira próxima, deparei com uma pavorosa casa à beira da estrada, situada na curva de uma rotunda constantemente atravessada por camiões, sem jardim algum, a comida horrível, um serviço péssimo, e música enlatada a troar pelo edifício inteiro.(...)
devida vénia ao Malomil
Hugh Trevor-Roper
1963, duma carta dum dos maiores Historiadores britânicos, datada de 1963, pela descrição deve ter estado alojado na Pousada do Castelo de Bode

foto duma agência turística
ver aqui história recente da Pousada
os ingleses são críticos implacáveis dos países ''exóticos'' que visitam, vejam-se as ácidas memórias dos oficiais que serviram em Portugal com Wellington.
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